segunda-feira, junho 5

O cobertor

Há por aqui cada história que eu não posso deixar de contar pois tudo isto são coisas que acontecem todos os dias em qualquer lugar desta linda cidade de Coimbra.

Há dias, um enfermeiro, gente boa, chega ao serviço para fazer o seu turno da meia-noite, quando um colega lhe diz que aquele turno lhe pertence a ele.

Teimaram os dois um bom bocado, até que resolvem ir ver a escala do serviço.

De facto, o que já lá se encontrava tinha razão, aquele turno era dele. Deu-se conta do engano, despediu-se do amigo e voltou para casa, tentando fazer pouco barulho para não incomodar a mulher, que já devia estar a dormir.

Quando vai a entrar no quarto para ir dormir, acontece-lhe o inesperado: leva com um cobertor pela cabeça abaixo.

Lutando atrapalhado para se livrar daquilo, eis que de repente consegue agarrar alguém por um braço, nem sequer sabendo quem, pois a outra pessoa continuava a tapar-lhe a cabeça com o cobertor para que ele não a visse, e o homem, coitado, não conseguia enfardar no outro e livrar-se do cobertor ao mesmo tempo.

Até que no meio da escuridão em que se encontrava lá arrasta com o intruso para a cozinha. Conseguiu apalpar uma garrafa e, mesmo abafado, arranja maneira de mandar com ela na cabeça do outro, que mesmo às escuras tinha levado um grande arraial de pancada.

Quando o enfermeiro consegue acender a luz, teve a maior surpresa da vida dele: era o vizinho do lado, que já estava quase morto. E que já devia andar a fazer os mesmos turnos que ele há muito tempo lá por casa.

O enfermeiro, quando viu o estado em que o tinha deixado, chamou uma ambulância e manda o outro para o hospital, onde este fica durante muito tempo nos cuidados intensivos, pois aquilo tinha sido a doer.

Segundo consta, este homem que levou com o cobertor parece que tem um físico que impõe respeito.

Quanto à puta da mulher, deve ter ficado passada com a surpresa, pois nunca saiu da cama, coitada. Foi posta na rua em camisa de dormir, até hoje.