quarta-feira, maio 17

Um episódio da minha vida

Estou tão farta de dar à língua sobre a vida dos outros, que resolvi escrever um pouco sobre mim mesma.

Amei e fui tão amada, que acho que não é sequer possível alguém algum dia ter sido tão feliz como eu fui durante sete anos.

Estava divorciada há uns meses quando conheci um português que viveu na Venezuela uma grande parte da sua vida.

Quando o conheci, não gostei dele, simpatizei, mas durante seis meses a coisa não passou disso mesmo, pois não sentia nenhuma atracção de outro género.

Ele, um homem do signo de Peixes, meigo e amoroso, nunca desistiu de me fazer visitas diárias, tinha uma firma aqui em Coimbra e passava o dia a fazer-me o namoro.

Como eu tinha vivido algum tempo nos Estados Unidos, um dia recebi um telefonema de uma amiga cubana a pedir-me que a fosse buscar ao aeroporto, pois vinha passar férias comigo.
Fui com ele.

Passados uns dias, ele e um sócio trataram de combinar uma viagem por Espanha para a minha amiga conhecer um país onde se falava a língua dela.

Fomos todos para Espanha: eu, ele, o sócio e a namorada, e ainda um outro amigo com a namorada também.

Numa carrinha da firma, uma festa todo o caminho, hotéis de cinco estrelas, e eu a pensar como havia de fazer à noite, pois estava a ver no que estes eventos dão no fim.

Depois de discutir com ele parte da noite numa discoteca em Madrid, lá ficou resolvido que ia dormir com ele.

Gostei, o homem era bom de cama todos os dias!

Passei a gostar de estar com ele, embora ele fosse casado. Viveu comigo sete anos até que eu, farta daquela situação, passei a falar no divórcio dele todos os dias, e a fazer da felicidade que nunca tinha tido um inferno.

Ele pertencia a uma religião que não aceita o divórcio, e eu – a quem a mulher dele não perturbava, pois, quando viajávamos para a Venezuela, ela regressava, e vice-versa – estava farta e quis dar-lhe uma lição que quase me matou de desgosto e arrependimento.

Um dia em que o homem que eu amava mais que tudo na vida viajou sozinho, fui para uma festa e conheci um homem impecável, boa pessoa e que gostou de mim. Em quinze dias casei com ele para chatear o outro.

Bem, não passa pela cabeça de ninguém o que eu me magoei a mim mesma.
Chorei dia e noite durante um mês.

Até que um dia cheguei ao pé da minha irmã e lhe disse: «Eu morro de saudades do homem que eu tinha!»

Aí ela respondeu: «Do que é que estás à espera? Acaba com isto.» Acho que era mesmo o que eu queria ouvir para acabar com aquele casamento de mentira.

O homem com quem tinha casado por vingança não merecia nada disto. Quando eu lhe disse que queria o divórcio, ele perguntou-me em que é que tinha errado. Fui honesta e disse-lhe: «Não! O defeito não é teu! Eu é que não sou capaz de esquecer a pessoa com quem vivia!»

Magoei este homem que era uma excelente pessoa, mas a verdade é que não consegui continuar esta farsa por mais tempo, e ao fim de um mês acabei com o meu casamento.

Telefonei ao outro e encontrámo-nos no mesmo dia.

O encontro foi para chorarmos como crianças: eu por ter feito o que fiz, e me ter magoado tanto a mim mesma por teimosia; ele por não ter tido a coragem de se divorciar.

Foi uma fase da minha vida em que passei pelo inferno descalça, pois foi muito grande o meu sofrimento quando me dei conta de que tinha feito a maior asneira da minha vida.

Ficámos grandes amigos, mas, assim como o meu casamento acabou, também acabou aquela magia, aquela cumplicidade, não sei explicar muito bem o que se terá passado, pois os sentimentos por vezes não têm explicação possível, mas de tudo o que sentíamos um pelo outro só restou uma grande amizade.

Ainda hoje não encontro explicação para o que fiz.

Mas a verdade é que, depois de me ter magoado tanto a mim mesma, o meu amor por esse homem esfriou de tal maneira, que depois de tentarmos de todas as formas possíveis não conseguimos ultrapassar aquele episódio de um mês.

Meu Deus, como nós as vezes somos tão felizes quase sem dar por isso!