segunda-feira, maio 15

O desconfiado

Esta minha amiga que andou pela Mauritânia tem imensos amigos dada a boa companhia que faz.

Um dia, vai para Lisboa com outra amiga e o namorado dela.

Ele tinha uma suite no hotel Penta, pois mesmo vivendo aqui na Mealhada gostava de viver bem e de dar conforto as amantes.

Um dia, estão os três a comer no Tavares quando ele começa a ver o que não existia, pois teimava que a namorada estava a galar uns velhos que estavam numa mesa próxima.

Arma tal rebuliço com as duas, que as deixa a comer sozinhas e sai porta fora.

Aí é que começa a aflição delas pois não tinham dinheiro para pagar a conta, que tinha começado pelos cocktails de camarão e já ia na lagosta.

Se até aí não tinham ligado importância aos velhos, a partir daquela saída do protector é que começa o regabofe com os velhos, que se aperceberam de tudo o que se passou. Elas começam a estrilhar, sorrisos para aqui, pestanadas para ali.

Aquilo começa a aquecer, com o empregado de mesa a trazer bilhetinhos, até que elas se vão sentar na mesa dos velhos.

Pelo menos o problema da conta já estava resolvido.

Qualquer uma destas moças era gente culta, pois as duas tinham cursos superiores. Portanto estavam preparadas para vários temas de conversa.
Vagabundas todos os dias mas muito bem informadas.

Claro que os velhos, que eram gente da alta finança, gostaram do que lhes apareceu pela frente a troco de um jantar.

Elas esqueceram por completo o desconfiado e saíram dali para o Elefante Branco, onde dançaram e conversaram a noite toda.

Lá pelas tantas, aparecem no Penta sem saber o que as esperava, mas com um cartão dos velhos nas carteiras já com alojamento para elas no caso de as coisas correrem mal.

Não foi preciso nada disso, pois o outro estava no bar do hotel com uma bebedeira triste à espera delas.

Pegaram nele, levaram-no para a suite, e até hoje ele não sabe a que horas elas chegaram.

A que viajava de vez em quando para a Mauritânia manteve essas amizades durante uns anos. A amiga casou com o desconfiado e deixou-se dessas aventuras.

A das viagens acabou por casar também já pela terceira vez. Quando lhe pergunto se vai continuar casada, ela responde-me que, nos dias de hoje, não se consegue viver bem só com um ordenado. É lúcida e inteligente. Teve consciência de que a idade estava a passar.

Está tranquila teve uma vida rica e bem preenchida.
Conheceu tudo quanto era bom, viveu com luxo e conforto.
Agora diz, e com razão, que a vida não lhe deve nada.