segunda-feira, maio 22

A casa da Aurora n.º 4

Como a vida é fácil para algumas pessoas!

Hoje por casualidade encontrei num centro comercial aqui em Coimbra a protagonista da casa da Aurora, e qual não é o meu espanto quando a vejo com dois gémeos nos respectivos carrinhos de luxo, duas amas e o seu motorista.

Isto tudo, ou seja, toda esta situação tem cerca de três anos desde o quarto alugado na baixa de Coimbra, do seu namorado pedreiro, e do amante que era o pai do namorado. O construtor.

Pois bem, não fiquei muito surpreendida, porque acho que a vida é mais fácil para quem não tem nada a perder.

E de facto, na altura em que ela andou com toda aquela chantagem com o sogro, ela nada tinha a perder; no entanto a situação agora é muito diferente, pois ela agora já não é a prostituta que trabalhava na casa da Aurora, mas sim uma senhora empresária.

Já não vive com o marido, pois o sogro já faleceu, e a partir desse momento foi ela que ficou com a firma dele.

Isto, segundo ela me contou, anda tudo em tribunal, mas do que é que adianta depois de o sogro lhe ter feito uma procuração com plenos poderes para ela o substituir?

Está de namorado novo, outro construtor, mas este com muito boa apresentação, e com um ar de chulo que dá medo!

Ele não a deixa falar muito tempo com ninguém, pois deve estar para lhe fazer o mesmo que ela fez ao de Miranda do Corvo.

Enfim, ela lá me foi dizendo que ele está a pedir o divórcio, e que a mulher está de acordo, no que eu até acredito, pois a firma deles estava falida, e eles devem estar a ver ali a sua tábua de salvação.

Cá para mim estão feitos um com o outro. Marido e mulher, claro!

Não tive sequer tempo para a avisar de nada, pois ele não saiu de perto.
Está gorda, bem arranjada, mas triste, pois, segundo me disse o motorista, este homem está vinte e quatro sobre vinte e quatro horas por perto, só se afasta para ligar para a mulher dele.

Este golpe vai ser muito parecido com o que ela deu ao outro.

Já começo a acreditar na justiça divina, e com a certeza que os herdeiros daquele património todo vão ser estes dois: o casal oportunista.

Talvez ela fique com a casa de meninas que está a ser gerida pelo motorista. A vida dá muitas voltas e por vezes volta ao princípio.

Só que subir não custa, mas descer deve ser tremendo.

Não fiquei a saber quem é o pai dos garotos, também não interessa, são lindos e parecem saudáveis.

Ela é que parece que perdeu a alegria de viver.

A cara dela não é a mesma, será porque no tempo em que andava com o sogro e com o marido ao mesmo tempo era mais feliz?

Ou estará a ficar com remorsos de tudo aquilo que fez?

Não acredito que assim seja, pois ela planeou tudo atempadamente. Pode de facto é estar com saudades da liberdade e da vida que tinha.

Esta história não deve ter um final feliz, pois verifiquei que ela está de trela curta. Mas, cá para nós, ela fez por merecer.