quarta-feira, abril 26

A Páscoa

Como já vai sendo hábito, passo todas as festas mais importantes do ano na Suíça, país onde vive a minha filha.

Pois este ano lá fui uma vez mais, com a mala cheia de prendinhas.

No Domingo de Páscoa, depois de dormirmos até mais tarde, arranjámo-nos e fomos à procura de um restaurante para almoçar. Como a minha filha é igual a mim, não programámos nada com a devida antecedência.

Saímos de casa perto da uma hora da tarde, e começámos a fazer a ronda
aos restaurantes onde mais gostamos de comer. Depois de darmos voltas por tudo o que era sítio e termos encontrando tudo fechado, a minha filha lembrou-se de ligar para um amigo português, que é bancário em Lausana, para lhe perguntar onde poderíamos arranjar um restaurante que estivesse aberto para podermos almoçar.

Fácil, o restaurante do Benfica, que é um dos locais onde os portugueses gostam de comemorar os dias mais festivos do ano.

Quando chegámos, já tínhamos mesa reservada, e lá comemos.

No fim da refeição, qual não é o meu espanto, dado que Coimbra é uma cidade muito reservada, quando o conjunto musical português me começa a tocar “Coimbra É Uma Lição” e as portuguesas começam a trazer para a nossa mesa tudo quanto eram sobremesas caseiras, pois é habito levarem de casa todo o tipo de doces, cada um da sua região, claro.

Ao mesmo tempo que fiquei emocionada, fiquei envergonhada também ao lembrar-me da maneira e do trato que nós aqui damos aos emigrantes portugueses quando eles vêm de férias para visitar os seus amigos e familiares e tentar levar uma boa recordação do seu país para aguentarem mais um ano de trabalho duro mas honesto.

Eu já senti na pele esse tratamento VIP quando conduzo o carro da minha filha, que, como é óbvio, tem matrícula suíça.

Tanto faz conduzir depressa como devagar, sou sempre tratada de filha-da-puta para cima; não ligo nenhuma e rio-me, mas depois desta bonita recepção fiquei a pensar no assunto.

Devíamos ter vergonha, que porcaria de gente é que aqui vive?
Que porcaria de país é este, que nem sequer se lembra de que são estes portugueses humildes mas dignos que contribuem em parte para a nossa triste economia?
Continuo a dizer: devíamos ter vergonha na cara e ser tão bons anfitriões como eles são connosco.
Será inveja por eles não andarem a contar os trocos e serem tão bem recebidos pelas entidades bancárias?
É que há por aqui tanto senhor engravatado que, quando entra no banco, os gerentes se escondem...
Devíamos mesmo era ter vergonha na cara.