sexta-feira, abril 28

A grande fraude

Tive conhecimento desta história através de um amigo, e acredito que seja verdadeira.

Há em Lisboa um médico, bem-parecido, com muito charme e apaixonado por mulheres belas, um homem a sério.

Um certo dia, encontra no seu longo caminho das paixões uma que lhe deu a volta à cabeça a ponto de o pôr completamente doido. Era bonita, elegante, meiga e, acima de tudo, boa de cama.

Como ele não liga muito a preconceitos e não vive de faz de conta, pois já tem uns sete divórcios no seu curriculum, divorciou-se novamente para casar com a mulher por quem estava loucamente apaixonado.

Como tem casa em Lisboa e uma bonita herdade no Alentejo, achou que não fazia sentido manter mais uma casa, e aconselha a sua futura esposa a vender a que ficaria livre depois do casamento.

Depois de combinarem tudo naquele clima de paixão, a futura esposa faz os contactos necessários para a venda do imóvel.

Uma vez em que ele chega a casa depois de um dia de consultas, encontra em cima de uma secretária uns documentos em nome de um cavalheiro qualquer.

Quando confronta a sua futura esposa para lhe perguntar de quem era afinal aquela casa que ela estava para vender, ela responde-lhe que era dela mesma, pois antes de ter sido operada aquele era o antigo nome dela.

O homem ficou passado, pois andou aquele tempo todo a comer gato por lebre.

A medicina hoje é perfeita de facto! Pois um homem estudar anatomia durante uma série de anos e não se aperceber de que o que andava a comer tinha sido um homem igual a ele é de deixar qualquer um passado.

Isto, de facto, há coisas de que até o diabo se admira!

Sofreu um grande desgosto por todas as razões. Primeiro por ser enganado, depois por não ter dado conta de nada, depois até talvez por repulsa.

Não sei o que é que se deve ter passado naquela cabeça, até porque o romance acabou de imediato, embora ele tenha contado ao amigo que aquela pessoa foi das mulheres que ele mais gostou na vida.

Não sei o que faria no lugar dele, se andasse com um homem e depois descobrisse que aquela coisa era uma mulher igual a mim, eu não me passava, eu acho é que estava internada em psiquiatria até hoje.

O que eu acho mesmo é que não somos só nós que temos problemas, pois há por aí pessoas que levam com cada uma, que é de loucos.

Este homem não desistiu, pois continua a fazer uma vida de boémia.

Mas que deve ter mais cuidado e estar muito mais selectivo, disso não tenho dúvidas.

quarta-feira, abril 26

A Páscoa

Como já vai sendo hábito, passo todas as festas mais importantes do ano na Suíça, país onde vive a minha filha.

Pois este ano lá fui uma vez mais, com a mala cheia de prendinhas.

No Domingo de Páscoa, depois de dormirmos até mais tarde, arranjámo-nos e fomos à procura de um restaurante para almoçar. Como a minha filha é igual a mim, não programámos nada com a devida antecedência.

Saímos de casa perto da uma hora da tarde, e começámos a fazer a ronda
aos restaurantes onde mais gostamos de comer. Depois de darmos voltas por tudo o que era sítio e termos encontrando tudo fechado, a minha filha lembrou-se de ligar para um amigo português, que é bancário em Lausana, para lhe perguntar onde poderíamos arranjar um restaurante que estivesse aberto para podermos almoçar.

Fácil, o restaurante do Benfica, que é um dos locais onde os portugueses gostam de comemorar os dias mais festivos do ano.

Quando chegámos, já tínhamos mesa reservada, e lá comemos.

No fim da refeição, qual não é o meu espanto, dado que Coimbra é uma cidade muito reservada, quando o conjunto musical português me começa a tocar “Coimbra É Uma Lição” e as portuguesas começam a trazer para a nossa mesa tudo quanto eram sobremesas caseiras, pois é habito levarem de casa todo o tipo de doces, cada um da sua região, claro.

Ao mesmo tempo que fiquei emocionada, fiquei envergonhada também ao lembrar-me da maneira e do trato que nós aqui damos aos emigrantes portugueses quando eles vêm de férias para visitar os seus amigos e familiares e tentar levar uma boa recordação do seu país para aguentarem mais um ano de trabalho duro mas honesto.

Eu já senti na pele esse tratamento VIP quando conduzo o carro da minha filha, que, como é óbvio, tem matrícula suíça.

Tanto faz conduzir depressa como devagar, sou sempre tratada de filha-da-puta para cima; não ligo nenhuma e rio-me, mas depois desta bonita recepção fiquei a pensar no assunto.

Devíamos ter vergonha, que porcaria de gente é que aqui vive?
Que porcaria de país é este, que nem sequer se lembra de que são estes portugueses humildes mas dignos que contribuem em parte para a nossa triste economia?
Continuo a dizer: devíamos ter vergonha na cara e ser tão bons anfitriões como eles são connosco.
Será inveja por eles não andarem a contar os trocos e serem tão bem recebidos pelas entidades bancárias?
É que há por aqui tanto senhor engravatado que, quando entra no banco, os gerentes se escondem...
Devíamos mesmo era ter vergonha na cara.

quarta-feira, abril 19

O filme porno

Há uns tempos, uma amiga andava a ser assediada pelo seu médico. Não queria o homem para nada, mas também não lhe dizia que não.

Durante cerca de dois anos e meio deixou-se seduzir, coisa que talvez lhe fizesse bem ao ego, vá-se lá saber o que se passa na cabeça das mulheres…
Eu sou mulher e não me compreendo a mim mesma.

E uma das coisas que mais desconcertam os homens nem sequer são uns pares de cornos que levam de vez em quando, mas sim as nossas mudanças bruscas de humor. Mudamos tão depressa, que eles até ficam atordoados.

Pois bem, quanto ao médico a coisa deu-se.
Ela, matreira e sabida, depressa se apercebeu de que aquilo ia acabar, e disso ela não gostou mesmo nada!, pois o homem durante aquela triste sessão teve um comportamento tão pouco normal, que eu nunca tinha tido conhecimento de nada assim, falando o tempo todo na mulher dele e que ela não merecia aquilo, etc.

Não sei por que carga d’água, ela resolveu arranjar uma maneira de se vingar.
Nada mais, nada menos do que arranjar forma de marcar um encontro de despedida para poder filmar o acto, para o ameaçar quando ele a quisesse largar. Isto foi um pandemónio de que não há memoria.

Primeiro passo: falar com alguém que pusesse uma câmara oculta no quarto onde se iria passar a matiné, depois montar todo o sistema de vídeo num outro quarto para o médico não se aperceber de que estava a ser filmado, pois a câmara era tão pequena, que depois de ensaiada ficou logo dentro de um arranjo floral. Às três da tarde lá começa o filme.

Assisti eu, outra amiga e a técnica que foi contratada para fazer o filme.
A técnica percebia tanto daquilo como nós, pois o filme saiu mudo.
Também não interessa, pois nós gostamos de ver aquilo mesmo assim.

Sentámo-nos as três sem podermos falar ou comentar, para o artista não dar conta da nossa presença.

Quanto à minha amiga, essa deu tudo por tudo em todos os aspectos, desde pôr o homem a despir-se do lado que a câmara filmava o ângulo que dava para se ver melhor, até começar a cena de sexo (se é que se pode chamar assim, pois nunca vi ninguém foder tão mal na minha vida).
Para a minha amiga pôr aquela tripa em pé, esteve cerca de uma hora e dez minutos, depois lá saltou para cima dele, de onde desceu no mesmo segundo, pois a tripa foi-se abaixo.

Fiquei tão farta de ver aquela miséria, que saí de mansinho e vim embora, pois não me deu prazer nenhum ver tanta incompetência junta.

Depois disto ainda me questiono porque é que um homem que não tem apetite sexual anda a seduzir seja quem for, ainda por cima qualquer labrego sabe o que deve tomar para não fazer figuras tristes. Os cientistas inventam tudo o que seja comprimido para lhes dar prazer a eles. Para as mulheres estão-se nas tintas, não inventam nada.

Sei perfeitamente que o que fiz não é ético! E qualquer pessoa tem o direito de me criticar. Por outro lado, quem escreve um livro ou um blog tem de fazer um pouco de pesquisa, pois de outra maneira como é que tem assunto?

A dita cassete não está para ser usada, pois o homem nunca teve quem tivesse paciência para fazer tamanho frete, e agora é ele que não quer largar a minha amiga.

Claro que já lhe perguntei para que é que ela queria aquilo… Resposta dela: «Estou apaixonada por ele.»

Não entendo para que quer ela uma coisa que lhe dá tanto trabalho e tão pouco gozo.

Estou para aqui a pensar que, se ela trocasse de cabeça com um burro, ele ficava mais mal servido que ela. Mas que triste fantasia.

E eu que pensava ir assistir a um grande espectáculo, fiquei uma hora e tal sentada no chão da casa que lhe foi cedida para a dita filmagem, pois aquilo só tem um quarto mobilado para as orgias do dono da casa.

Não dou o tempo como perdido porque fiquei com assunto para escrever e meditar no comportamento de um homem que é médico e que tem plena consciência do problema que tem. E pergunto a mim mesma: Porque é que ele não aproveita esses bocados livres para dormir como as pessoas?

terça-feira, abril 18

A ida ao psiquiatra

Cá por casa estão sempre a passar-se acontecimentos que merecem ser contados, pois cada um é mais complicado que o outro.

Nesta semana, uma grande amiga cá de casa sofreu um desgosto amoroso.
Como gosto imenso dela, resolvi que lhe arranjaria um psiquiatra de graça, dadas as suas poucas possibilidades económicas.

Como o médico a quem a vou recomendar é um garanhão à moda antiga, lá tive, junto com outra grande amiga, de arranjar uma estratégia para o doutor não se preparar para lhe saltar logo para cima.
Como ele próprio afirma, as mulheres nestas situações primeiro vão para a cama com o psiquiatra, e a seguir com o advogado! Com o entendido de leis, todos nós sabemos que é prática corrente, com o médico... nem sempre.

Ora bem, sentamo-nos as três a tomar um café e lá resolvemos que diríamos ao clínico que o desgosto amoroso da nossa amiga era por causa de uma mulher. Decidimos então que ela teria de se fazer passar por lésbica, e que daí viria a sua depressão.

Pior a emenda que o soneto! A minha amiga lá foi à consulta e, como ela é de facto uma mulher com boa apresentação, isto não está a resultar nada, pois ele quer tirar-lhe tal ideia da cabeça, e até já lhe quer proporcionar uma matiné amorosa para a fazer chegar à conclusão de que o que é bom é mesmo um homem a sério, coisa que ela está farta de saber!

Lá tivemos de preparar outra reunião de emergência para decidirmos o que é que se devia fazer para ver se o empaliamos até que a nossa amiga comum fique pelo menos melhor.

Como a aniversariante do episódio anterior tem mais tempo que eu e mais jeito para estas coisas, lá combina um café com o médico no Atrium, que é um dos locais de encontro mais calmos cá de Coimbra.

Consegue sem dificuldade aliciá-lo a encontrar-se com uma cabeleireira, pessoa batida nestes encontros, e sem sentimentos.

Lá se deu o tal encontro na casa da cabeleireira, que começa por lhe contar as dificuldades económicas por que está a passar neste momento de crise e por aí fora.

Como este homem é sovina, a coisa não lhe agradou mesmo nada!

A tal cabeleireira, que é um refinado coirão, quando viu que as coisas não iam ser fáceis com o velho batido, pôs um cão rafeiro que tem em casa na cama entre os dois.

O cão, além de rafeiro, é mau, e o médico nem sequer conseguiu uma aproximação da dona, pois de cada vez que tentava, o cão ladrava-lhe.

A verdade é que o velho psiquiatra está a voltar à carga, além de se fartar de dizer mal da outra, pois este homem tem uma língua perversa.

Está para aqui tal confusão, que nós não sabemos mesmo como resolver. Alguém tem ideias?

sexta-feira, abril 7

A festa de aniversário

Aqui por Coimbra morre-se de tudo menos de tédio! Do que é que se havia de lembrar uma amiga para presentear a outra? Festejar na casa dela o aniversário da amiga.

A dona da casa é discreta e sabe que ela tem um casamento que não a faz minimamente feliz.

São duas pessoas que nada têm que ver uma com a outra, mas como há filhos pelo meio, aquilo lá se vai mantendo mesmo não fazendo nenhum sentido... Enfim…

Como a dona da casa é um pouco louca (mas não tanto como a aniversariante!) e como esta conhece metade do País e a outra metade a conhece a ela, vá de trazer uns empresários das Beiras e umas amigas cá de Coimbra, e a festa começa!

Começo por vos dizer que a felicidade da aniversariante era de tal ordem, que durante a tarde já estava a telefonar para a dona da casa a perguntar quem é que podia beijar na boca, ao que a outra responde que beijasse quem lhe desse na real gana, pois esta festa só fazia sentido se ela estivesse feliz e à vontade, coisa que não se passa na casa dela, que é um viver de faz de conta.

Quando começa a anoitecer, as damas vêm vestidas fazendo questão nos altos decotes, coisa que está na moda e que eu pessoalmente acho lindo. Começam a chegar os convidados, já havia música e o ambiente bem aquecido.

Dançou-se, comeu-se, bebeu-se, tudo muito feliz, quem é que não gosta de festa e de boa disposição ao fim de um dia de trabalho?

Pois esta festa foi feita num dia de semana, para não dar nas vistas.
A felicidade da aniversariante foi tão grande, que não há palavras para descrever tal comportamento.

No fim da noite ela já dava beijos em todo o mundo: fosse homem ou mulher, era igual para ela.
A gentileza dela foi de tal ordem, que lá pelas tantas até foi pôr um dos convidados a mijar.

Os amigos da dona da casa, por educação e respeito, tiveram um comportamento exemplar, até porque de uns senhores se tratava.

Esta vai ser uma das festas que vão ficar na minha memória para o resto da minha vida, que espero seja longa.

Os cavalheiros também tiveram um comportamento muito digno; se assim não fosse, a festa podia dar para o torto, mas não, foi uma brincadeira onde eu não me ria tanto há anos, pois também estava presente.

Foi de facto uma festa inesquecível! Com a aniversariante pondo o resto das mamas de fora, todos os convidados homens foram dar uma chupadela. Adoraram, mas não abusaram. Foi lindo de ver.

Sem hipocrisias, sem maldade, e mesmo com a aniversariante a ir pôr o convidado a mijar, foi uma festa linda onde todos se divertiram.

Amiga, vou esperar pelo teu próximo aniversário para ver a felicidade estampada no teu rosto, pois acho que mereces passar uns bons bocados para aguentar o teu dia-a-dia.

A vida é linda, e ter bons amigos é maravilhoso, coisa que não é fácil nos dias que correm. Parabéns da tua amiga Marília!

segunda-feira, abril 3

A Tareia

Hoje vieram fazer-me um convite para uma matança de um porco.

Um convite feito com muita cerimónia, fazendo o casal muita questão que eu fosse, pois ia um alto funcionário das finanças, um director de um banco, médico de família, enfim… convidaram as pessoas que eles acharam mais importantes e que lhes podiam ser úteis na vida comercial deles.

Estávamos no mês de Janeiro, o frio era muito, as casas nas aldeias são frias e com pouco conforto, bem... a vontade de ir era nenhuma, mas não tive como desmarcar-me e aceitei.

Chamei a minha irmã, para não ir sozinha, e lá fomos para a grande farra. Quando chegámos, andava a família toda envolvida a fazer o sarrabulho, a grelhar as febras... Só os donos da casa é que não apareciam!

Entretanto, nós, os convidados de grande cerimónia, vimos um baralho de cartas em cima de uma mesa e sentámo-nos para começar uma sueca que durou parte da noite.

Como o jantar não havia meio de ser servido, continuamos a jogar.

Lá pelas tantas da noite, aparece uma travessa com batatas já frias e muito tesas – eu provei! A dona da casa já vinha com um olho todo vermelho e a dizer: «Isto não fica assim!»

Olhámos uns para os outros sem compreender, e nada dissemos.

Entretanto, começámos a ouvir uns barulhos de fundo que não nos deixaram dúvidas do que se estava a passar lá dentro… e nada de nos pôr comida na mesa, até porque entretanto até as velhas tinham desaparecido.

Talvez uma meia hora depois, aparecem umas febras muito queimadas, e a dona da casa com um olho já todo negro.

Alguns dos convidados já tinham saído de mansinho, pois não estiveram para aguardar pelo desfecho daquilo.

Nós, os que estávamos no jogo, não demos muito por o tempo passar. Foi então que eles se aperceberam de que já não havia grande parte dos convidados.

A partir daí a pancadaria foi de tal ordem, que tivemos de transportar os dois para o hospital dos Covões.

Ela, farta de apanhar, sem poder abrir o bico para não incomodar as visitas, revoltou-se..., agarra numa cadeira e começa a dar-lhe com ela pelas costas abaixo, que lhe partiu logo uma clavícula.

Chamámos uma ambulância, foram para o hospital, e o marido ficou internado. Já no hospital, ainda lhe mandou umas biqueiradas nas pernas.

Ela veio para casa com os olhos todos negros, mas contente por ter posto o marido na ordem.
Continuam juntos, e ele não põe o pé na argola, pois morre de medo dela.

Acho que ele escolheu mal o dia para fazer tal cena, mas nós gostamos de ver um homem com um físico daqueles a levar uma tareia que até Deus se admira.