segunda-feira, março 6

A Carta

Esta cena que se passou cá em casa seria igual a tantas outras se não tivesse tomado as proporções que tomou.

Há dias apareceu-me aqui, com ar de quem não quer nada, uma cliente de longa data.

Achei a visita estranha e fiquei à espera do que isto iria dar! Não tardou muito tempo até ela me pedir se eu lhe escrevia uma carta para ela própria a dizer coisas sobre o marido.

Eu recusei de imediato e continuei o que estava a fazer, não liguei importância ao pedido nem à pessoa, já estou tão habituada a pedidos estranhos, desde quererem matar os maridos com bruxarias, que não ligo nada a estes disparates. Além disso, sou nativa de Capricórnio e não tenho jeito nenhum para a diplomacia, ignorei e virei costas.

Ela fica de conversa com a minha empregada e lá a convenceu a escrever a tal carta, para ela própria. Na carta, dizia que o marido tinha amantes, que ele era este e que era aquele, enfim.

Aquilo era um nunca mais acabar de difamações e de acusações sem sentido. Eu fiquei a pensar que aquela mulher que não tinha nada para fazer estava a arranjar lenha para se queimar.

Dito e feito. Quando o homem tem conhecimento por ela da carta e leu aquilo, passou-se! E viu de imediato de onde vinha aquela triste ideia. Ele, um empresário que começa do nada e hoje tem um nome grande nesta cidade, pode ser tudo menos burro.

A vida desta mulher, que até era boa, passou a ser um inferno, pois se ele tinha algum respeito por ela, danou-se e deixou de ter.

Agora, sim, ela tem motivos. Pois este homem, que até era pacato, passou dos oito aos oitenta e agora frequenta tudo o que é casas de diversão. Bem feito! Ela, que não tinha nada com que se inquietar, agora já tem.

Mulher que não trabalha não sei porquê, nunca lhe dá para nada de bom. Ou saem uns bons pares de cornos ou outra maldade qualquer.

A esta deu-lhe para a escrita, e que escrita, meu Deus! Arranjou sarna para se coçar, pois homem que se vicia em mulheres da rua nunca mais acha graça a outro tipo de mulher.

Nunca saberei por que é que ela fez isto. Mas a vida tranquila que ela tinha acabou, o marido tornou-se um vadio de marca maior. Noitadas e putas são o pão-nosso de cada dia, à mulher não liga nenhuma.

Mas, cá para nós, ela fez por merecer.

Tinha uma vida tranquila, um marido amigo, o que é que ela quereria mais?

Um valente par de cornos? Agora devia estar feliz, já tem!

Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga. E esta está a pagar e de que maneira!