A diabinha
Estava eu tranquilamente a tratar das minhas plantas quando o telefone toca.
Atendo, e era a filha de uma senhora que trabalha aqui pelo meu bairro fazendo limpezas.
Pediu-me com alguma insistência para falar comigo. Como conhecia a mãe, lá cedi, embora hoje esteja arrependida, porque se a mãe é uma pessoa boa, esta miúda com cara de anjo é um demónio muito bem disfarçado com um rosto angelical.
Segundo ela própria me contou, quando tinha cerca de dezasseis anos de idade já tinha a maldade e a manha de uma mulher adulta, má, e mal formada. Mal começou a namorar com alguém que por qualquer motivo lhe interessou, vá de dar o golpe da barriga, o que é prática corrente mas em mulheres adultas, nunca numa garota.
O rapaz, gente boa, acaba por se casar com ela, pois era filho de pais separados e tinha um certo trauma em relação a situações desse tipo.
Como também era jovem, não tinha tido sequer tempo para viver e conhecer outras mulheres, até que um certo dia, no seu emprego, conheceu uma rapariga que lhe agradou. Como a maior parte dos homens são burros, este não foi excepção e conta tudo o que se estava a passar com ele à mulher, pois já estava decidido a pedir o divórcio.
Esta, que já tinha a manha toda, fez de conta que aceitou e diz-lhe que quer conhecer a outra, pois queria saber a que tipo de mulher ia entregar o seu filho quando ele fosse passar o fim-de-semana com o pai.
Até ai tudo bem, o rapaz acreditou, e nem sequer se lembrou de que aquilo era fartura a mais.
Lá combinam o dia, e ele leva a moça que ele namorava a casa da mulher, que foi muito simpática, e oferece um chá envenenado à outra, que saiu de ambulância de casa da rival.
Claro que eu quis saber o que ela tinha posto no chá da outra, graças a Deus que foi só veneno dos ratos, pois se fosse outro tipo de veneno, como um pouco de herbicida por exemplo, a outra já estava a fazer tijolo. O que lhe valeu foi a inexperiência e os poucos conhecimentos da diabinha.
Com o jeito doce que ela teve ao dizer na minha cara que foi sem querer que envenenou a outra, daqui a uns anos vai tornar-se uma veterana.
Este episódio vai ter continuação, disso eu faço questão! Pois, mesmo sem me apetecer, vou recebê-la novamente para saber ao certo o que é que aconteceu à que tomou o chá envenenado.
O marido não sabe nada, só sabe que a namorada saiu de casa dele de ambulância a babar-se e a vomitar.
Desde sempre houve maldade, mas dá-me a ideia de que com o tempo as pessoas vão refinando muito mais cedo, começando logo que nascem.
Onde é que isto já se viu? Hoje a maioria das pessoas vive com o diabo sem se aperceber.
