quarta-feira, fevereiro 1

O casamento da manhosa

Ontem lembrei-me de perguntar à manhosa porque é que ela tinha ido casar para Lisboa, sendo ela aqui de perto. A explicação foi a seguinte:

Era ela jovem e ainda morava com os pais, gente de poucos recursos que vivia numa aldeia junto à serra onde existem apenas pedras e mato. Eles possuíam um pequeno rebanho, que ela levava para os pastos de vez em quando.

Tinha treze anos quando um outro jovem de quinze anos a violou. Os tempos eram outros, e as mentalidades também. Os pais trataram logo de querer limpar a honra da jovem, foram falar com um senhor lá vizinho que tinha um parente deficiente em Lisboa, enfim, «pior a emenda que o soneto», a coisa lá fica combinada com o tal familiar, e passado algum tempo aparece a tal família de Lisboa para conhecer a moça, muito jovem e muito bonita!
Pelo menos o pai do rapaz gostou muito… e logo arranjou maneira de a levar para casa já com eles! Não fosse o outro que a violou engravidá-la.

Já em Lisboa, o pai do rapaz resolveu que ela iria todos os dias com ele para o trabalho para poder um dia dar continuidade ao negócio de família, dado que a esposa era funcionária pública.

Aí é que começa um novo episódio da vida da jovem. O futuro sogro, homem quarentão, sabido, charmoso e porco!, tratou logo de aliciar a miúda com almoços, prendinhas, passeios pela serra de Sintra...

Não tardou, portanto, que a coisa se desse! Aquilo durou até aos dezasseis anos dela, altura em que ela engravida.

Aí ele teve de pensar com a cabeça de cima e combinou com ela que, na hora em que a mulher voltasse do trabalho, ela devia estar deitada na cama do filho.
A tramóia ficou preparada entre os dois, pai e noiva.

A partir dali o marido fala com a mulher dele, porque «em alturas de aperto eles sempre falam com as mulheres», e resolvem casar os jovens. Ela ainda hoje não sabe explicar-me que doença é que o rapaz tinha, para mim aquilo era esquizofrenia mas não total, porque na hora de o casarem ele começa a ter um ataque de soluços e a inchar de tal maneira, que os sapatos, que eram de pala com elásticos dos lados, rebentaram todos.

O sr. notário já não os queria casar, deve ter achado ali qualquer coisa de estranho, mas o sogro foi lá dentro falar e ele ainda os casou antes de chegar a ambulância.

No fim da cerimónia, o noivo foi para o hospital à pressa, e a noiva foi com um primo dele para fazer de noivo para os jardins de Sintra tirar as fotografias. O copo-d’água fez-se na mesma…

Mas, nisto, alguém se lembrou de criticar o segundo fato da noiva.
Ela, ainda criança, ficou triste e começou a chorar. Estava inconsolável e foge para a casa de banho.

Eis que estava lá na festa um rapaz cabo-verdiano, muito giro, que se meteu logo com ela lá dentro, a consolá-la.

A queca foi de tal ordem, que a cabeça dela batia na porta de madeira com toda a força. O pai dela foi ver o que se passava com a filha, e só a ouvia a gemer e a cabeça dela a fazer pum… pum… pum…

Começa então o pobre homem a confortá-la: «Não te mates, filha, que nós vamos anular o casamento!» Então ela responde: «Vai chamar a mãe, que eu falo com ela.» Foi aí que o outro aproveitou para sair da casa de banho.

A festa continuou, a noiva já estava mais calma! Mas, como estava cansada, foi com o sogro levar os pais à estação, a sogra foi para o hospital saber notícias do filho. A noiva e o sogro ficaram lá por Lisboa, numa residencial até às tantas, dizendo depois em casa que os pais da noiva tinham perdido o comboio.

Núpcias com dois homens, e nenhum era o marido! Nem me passava pela cabeça que pudesse acontecer a alguém!

«Felizmente que naquele tempo ainda havia muito homem a gostar de mulher», mas a história não termina aqui.

O marido acaba por sair do hospital ao fim de um mês. Ela, passados uns tempos, tem um filho que também nasceu doente.
A carga começou a ser demasiado pesada, e as responsabilidades também, para os dezassete anos dela.

Começa a fazer as malas e veio embora, não sem antes ter uma discussão com a sogra. A sogra não achava bem que ela deixasse o filho e o marido. Ela responde-lhe: «Filho e marido, não, pois eles são irmãos!»

Deixou o casal a discutir forte e feio e arrancou rumo à Figueira da Foz. Arranjou emprego num restaurante, e acho que aí foi a primeira vez que ela gostou de alguém a sério – do dono do restaurante.

Durante uns tempos, e embora trabalhando muitas horas, foi feliz, até que o tal cavalheiro a pôs na cama a dormir com ele e com a mulher.

Já passaram vinte anos, ainda hoje ela tem aquilo presente. Acho que foi o maior trauma da vida dela.

Essa relação acabou logo. Depois de vários empregos, e de vários homens à mistura, eis que lhe aparece o tal que tinha a confeitaria no Porto.

Dessa relação ela teve um filho saudável. Aos catorze anos, o moço pede à mãe para irem a Lisboa conhecer o irmão.

Foram e foi outra tragédia! Os sogros receberam-na bem, e os dois irmãos foram visitar um centro comercial ali por perto. Qual não é a aflição do mais jovem quando o irmão doente começa a ter um ataque.
Telefona para a mãe os ir buscar, pois não sabia o que fazer.

O meu conselho para ela foi que não aparecesse mais, pois de cada vez que aparece… Meu Deus, é um pandemónio!

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É a partir deste episódio que os meus leitores ficarão a conhecer a história da manhosa e da sua casa de massagens, dos clientes que a visitam e ainda algumas das taras destes.