segunda-feira, janeiro 23

A passagem de ano dos galdérios

Em Coimbra morre-se de tudo menos de tédio.

Imaginem do que se lembraram alguns amigos: fazer uma passagem de ano onde não teriam de levar as mulheres deles.

Nada mais fácil do que fazerem a festa na véspera, pois no próprio dia, e como é natural, teriam de levar a família. Puseram-se todos de acordo e lá começaram os preparativos para a grande farra.

Antes de mais, arranjar local. Não foi difícil. Conseguiram um armazém de um senhor já de uma certa idade ali perto da Mealhada. Depois de encomendarem o leitão, arranjaram os pratos e os copos descartáveis. Como o frio era mais que muito, todos colaboraram e lá carregaram a lenha para aquecer o ambiente.

Depois de tratarem de todos estes pormenores, faltava o mais importante: arranjarem duas stripers, o que também não foi difícil, com a oferta que por aí anda.

A partir daí chega a noite de sexta-feira, e lá começam eles a telefonar uns para os outros inventando todo o tipo de desculpas como carros avariados, etc., e lá se juntaram todos dentro do horário previsto.

Fizeram uma grande fogueira cheia de troncos e lá conseguiram aquecer o casarão. Começam a beber e a comer feitos loucos até apanharem tamanha bebedeira, que, quando começou a sessão de strip, eles faziam bicha para lamberem as artistas contratadas.

Com o que os galdérios nunca contaram, ao convidar o ancião proprietário do armazém para ele aparecer por lá, foi que o senhor aparecesse mesmo. O senhor entra, vê aquele espectáculo triste, começa a sentir-se mal... e só teve tempo de perguntar se as línguas daqueles homens eram as piças do futuro.

Eles ficaram sem palavras, pegaram no senhor, que estava de facto mal, e acabaram a noite no hospital.

Isto só pode ter sido praga de alguma das mulheres deles.

Andaram eles oito dias a fazer os preparativos para uma festa que prometia ser de arromba, e estão agora numa tristeza que só visto, e ainda por cima entraram em pânico com medo que as mulheres descubram o que se passou naquela noite.

Fartam-se de visitar o velho, não saem lá de casa com medo de que ele dê com a língua nos dentes, pois as ucranianas foram também atrás deles para o hospital.

Mas que miséria de vida que eles estão a passar, começaram mesmo o ano com o pé esquerdo, coitados.

Agora digam-me se este jet-set cá de Coimbra não é gente com imaginação?

A verdade é que a coisa até nem foi mal pensada, só que estes planos de vez em quando dão para o torto.