A funcionária pública em férias
Não sei porquê, mas quando acordo a pensar que vou ter um dia tranquilo, surge logo cada problema para eu resolver que é o fim do mundo.
Pois este começa assim:
Aparece-me uma amiga da minha terra que é funcionária pública há já alguns anos, é do signo de Touro e, como tal, boa pessoa.
Não estranhei a visita porque de vez em quando ela aparece, umas vezes com um saco de pinhas para a minha lareira, outras com uma bonita planta. É generosa e gosta de mim.
Desta vez ela senta-se e começa a fazer-me perguntas sobre a prostituição em Coimbra, sobre os locais de engate, etc.
«Olha», respondo eu, «costumo vê-las por tudo o que é sítio ali pela baixa, há prostitutas na Adelino Veiga, no Bota Abaixo e também ao pé da estação.»
Mas fiquei intrigada e pergunto: «Afinal o que é que tu queres às putas?»
«Nada. Só que estou de férias e preciso de ganhar dinheiro para trocar de carro.»
Fiquei a olhar para ela talvez surpreendida!
«Não esteja a olhar assim para mim, porque eu vou meter-me nisso, e você tem de me ir lá pôr!»
Começo a rir à gargalhada. Não passava pela cabeça de ninguém, e muito menos pela minha, que ela quisesse fazer de mim chulo!
Como nós estamos habituados a pedir favores uns aos outros lá na terra, isto para ela era como se me estivesse a pedir para lhe abreviar uma consulta que estivesse em lista de espera ou qualquer coisa assim no género.
Passei-me e disse-lhe: «Tu deves estar maluca, eu não vou levar-te a parte nenhuma!»
Resposta dela: «Tem de ir. Eu conheço alguma coisa em Coimbra a não ser o caminho para a sua casa?»
Moía, a dizer que não, e ela a insistir de tal maneira, que acabei por ir mesmo!
Capricórnio contrariado não é fácil.
Mas ela entendeu que tinha de ser eu a ir lá levá-la e não desistiu até que a meti no carro.
Nem passa pela cabeça de ninguém como eu me sentia. Parecia que toda a gente sabia o que eu ia fazer.
Quem me conhece sabe que não sou nada moralista, que levo tudo na brincadeira e que entendo que cada um de nós só tem é de fazer aquilo que lhe apetece, mas, enfim, talvez o meu espírito não estivesse a gostar daquilo.
Então, já na baixa de Coimbra, connosco a passar de carro, eu ia-lhe dizendo: «Estás a ver aquelas mulheres a ver montras? Não estão a comprar nada! São putas, entendes? Estão à espera de clientes! Estás a ver aquelas ao pé da estação? Não estão para viajar, estão à espera de clientes, entendes?»
Até que ela, já farta de me aturar, diz:
«Ó mulher, tenha calma! Eu não quero que vá tomar conta de mim, só quero fazer um reconhecimento dos locais! À vinda, já me pode deixar ficar, pois já vi tudo.»
Vim para casa preocupada com ela, fiquei todo o dia e parte da noite também à espera de que ela regressasse.
Ia espreitando pela janela para ver se o carro dela lá continuava, pois gosto imenso dela e não queria que ela se fosse embora zangada comigo. Tinha consciência de que não me tinha portado lá muito bem!
Às tantas da noite lá aparece ela toda contente, acompanhada por um cavalheiro com um carro de matrícula espanhola, despedindo-se com um beijo de mão. Até parecia que estava a chegar uma primeira-dama! E eu na varanda a ver aquilo, pois não conseguia dormir sem ela chegar.
A minha amiga subiu com uma caixinha de bolos para mim, mostrou-me um maço de notas e foi-se embora para a terra dela, pois queria estar cedo em Coimbra no outro dia.
O mês passou depressa, e ela resolveu tirar uma licença sem vencimento durante um ano.
Não arranjou chulos, e hoje tem um carro de alta cilindrada. Parece uma empresária bem de vida.
Já está novamente na instituição em que trabalhava antes de andar na putice, e só eu e ela é que sabemos o que se passou.
Hoje, vou novamente encontrar-me com ela em Cantanhede. Ela vai com outra amiga lá da zona que também tem histórias incríveis.
Vou cheia de curiosidade para ouvi-las. Tenho a certeza de que trago material que chegue para escrever uns tempos, além do prazer que me dá ir falar com gente simples, pois a hipocrisia de Coimbra mata-me de tédio, aqui ninguém diz o que pensa mas sim o que fica bem! As pessoas têm muito cuidado com as palavras, não estão à vontade umas com as outras. Vive-se muito de fachada, até parecem robôs.
E os convites de Coimbra!? São assim: «Aparece!» «Gostei tanto de te ver!» Só que nunca dizem o dia nem a hora a que devemos aparecer. É giro.
Quanto à minha amiga, não olhou a meios para atingir os fins.
Mas que teve muita coragem, lá isso teve.
Pois este começa assim:
Aparece-me uma amiga da minha terra que é funcionária pública há já alguns anos, é do signo de Touro e, como tal, boa pessoa.
Não estranhei a visita porque de vez em quando ela aparece, umas vezes com um saco de pinhas para a minha lareira, outras com uma bonita planta. É generosa e gosta de mim.
Desta vez ela senta-se e começa a fazer-me perguntas sobre a prostituição em Coimbra, sobre os locais de engate, etc.
«Olha», respondo eu, «costumo vê-las por tudo o que é sítio ali pela baixa, há prostitutas na Adelino Veiga, no Bota Abaixo e também ao pé da estação.»
Mas fiquei intrigada e pergunto: «Afinal o que é que tu queres às putas?»
«Nada. Só que estou de férias e preciso de ganhar dinheiro para trocar de carro.»
Fiquei a olhar para ela talvez surpreendida!
«Não esteja a olhar assim para mim, porque eu vou meter-me nisso, e você tem de me ir lá pôr!»
Começo a rir à gargalhada. Não passava pela cabeça de ninguém, e muito menos pela minha, que ela quisesse fazer de mim chulo!
Como nós estamos habituados a pedir favores uns aos outros lá na terra, isto para ela era como se me estivesse a pedir para lhe abreviar uma consulta que estivesse em lista de espera ou qualquer coisa assim no género.
Passei-me e disse-lhe: «Tu deves estar maluca, eu não vou levar-te a parte nenhuma!»
Resposta dela: «Tem de ir. Eu conheço alguma coisa em Coimbra a não ser o caminho para a sua casa?»
Moía, a dizer que não, e ela a insistir de tal maneira, que acabei por ir mesmo!
Capricórnio contrariado não é fácil.
Mas ela entendeu que tinha de ser eu a ir lá levá-la e não desistiu até que a meti no carro.
Nem passa pela cabeça de ninguém como eu me sentia. Parecia que toda a gente sabia o que eu ia fazer.
Quem me conhece sabe que não sou nada moralista, que levo tudo na brincadeira e que entendo que cada um de nós só tem é de fazer aquilo que lhe apetece, mas, enfim, talvez o meu espírito não estivesse a gostar daquilo.
Então, já na baixa de Coimbra, connosco a passar de carro, eu ia-lhe dizendo: «Estás a ver aquelas mulheres a ver montras? Não estão a comprar nada! São putas, entendes? Estão à espera de clientes! Estás a ver aquelas ao pé da estação? Não estão para viajar, estão à espera de clientes, entendes?»
Até que ela, já farta de me aturar, diz:
«Ó mulher, tenha calma! Eu não quero que vá tomar conta de mim, só quero fazer um reconhecimento dos locais! À vinda, já me pode deixar ficar, pois já vi tudo.»
Vim para casa preocupada com ela, fiquei todo o dia e parte da noite também à espera de que ela regressasse.
Ia espreitando pela janela para ver se o carro dela lá continuava, pois gosto imenso dela e não queria que ela se fosse embora zangada comigo. Tinha consciência de que não me tinha portado lá muito bem!
Às tantas da noite lá aparece ela toda contente, acompanhada por um cavalheiro com um carro de matrícula espanhola, despedindo-se com um beijo de mão. Até parecia que estava a chegar uma primeira-dama! E eu na varanda a ver aquilo, pois não conseguia dormir sem ela chegar.
A minha amiga subiu com uma caixinha de bolos para mim, mostrou-me um maço de notas e foi-se embora para a terra dela, pois queria estar cedo em Coimbra no outro dia.
O mês passou depressa, e ela resolveu tirar uma licença sem vencimento durante um ano.
Não arranjou chulos, e hoje tem um carro de alta cilindrada. Parece uma empresária bem de vida.
Já está novamente na instituição em que trabalhava antes de andar na putice, e só eu e ela é que sabemos o que se passou.
Hoje, vou novamente encontrar-me com ela em Cantanhede. Ela vai com outra amiga lá da zona que também tem histórias incríveis.
Vou cheia de curiosidade para ouvi-las. Tenho a certeza de que trago material que chegue para escrever uns tempos, além do prazer que me dá ir falar com gente simples, pois a hipocrisia de Coimbra mata-me de tédio, aqui ninguém diz o que pensa mas sim o que fica bem! As pessoas têm muito cuidado com as palavras, não estão à vontade umas com as outras. Vive-se muito de fachada, até parecem robôs.
E os convites de Coimbra!? São assim: «Aparece!» «Gostei tanto de te ver!» Só que nunca dizem o dia nem a hora a que devemos aparecer. É giro.
Quanto à minha amiga, não olhou a meios para atingir os fins.
Mas que teve muita coragem, lá isso teve.

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