A festa da varanda
Um amigo bon vivant meteu-se há uns anos num senhor sarilho.
Casado com uma hospedeira da TAP, tem um casamento normal, podemos dizer que faz a mulher feliz, este sabe viver!
Quando a mulher está em terra, ele é um marido exemplar. Como ele sabe a escala dela, logo que ela está no ar, ele organiza cada festa, que é de rebimba o malho, vale tudo.
Como a mentira tem perna curta, ele dessa vez levou um susto danado.
Os funcionários da TAP fizeram uma greve, e a mulher veio para casa a meio da festa.
Pelo que me contaram, aquelas duas amigas do episódio do desconfiado, as que não tinham dinheiro para pagar a conta, também lá se encontravam, pois estavam presentes em tudo o que era duvidoso.
A mulher, com as malas nas mãos, não esteve para andar à procura das chaves, e tocou à campainha. O dono da casa comunica aos amigos o que se estava a passar, e vá de começar a pôr mulheres pela varanda abaixo.
O edifício tinha um terraço recuado que ficava aí a metro e meio da varanda do apartamento do casal, as putas lá se acomodaram debaixo, e ao frio durante algum tempo, que lhes pareceu uma eternidade. Elas não podiam sair porque não queriam correr o risco de ser vistas, e escadas também não viram nenhuma.
Dos outros prédios, os mirones não lhes davam paz, para ver o que se estaria ali a passar.
Em pleno Inverno, oito mulheres luxuosamente vestidas aninhadas debaixo de uma varanda como sardinha em lata... era, no mínimo, estranho.
A mulher chega e encontra uma mesa recheada de tudo, pergunta o que se passa ali, e logo um deles responde que tinha feito anos e que a mulher não o deixava fazer a festa lá em casa.
A dona da casa sentou-se à mesa, talvez esperando quem iria aparecer mais.
Não teve sorte nenhuma, porque na verdade já tudo se tinha passado antes de ela chegar.
O dono da casa, passado algum tempo, e com a maior das descontracções, diz para o falso aniversariante: «Olha, eu vou ouvir uns fados com a minha mulher, e quando chegar não quero nem um prato sujo.»
Foi a sorte das putas, pois estavam cheias de medo que os mirones chamassem os bombeiros para as tirar de lá.
Parece que se riram o tempo todo, para dar a ideia de que tudo estava a correr bem.
O frio era de matar, não fossem os bons casacos de peles que as putas usavam, e tinham morrido ali mesmo congeladas.
É claro que voltaram a ser convidadas, pois eles ficaram com a água na boca. Não tinha havido tempo para mais nada que não fossem as apresentações.
As putas não aceitaram.
Um dia, Deus disse: «Sejam bons, mas não sejam tolos.»

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