segunda-feira, janeiro 2

A alternadeira

Num dia de Verão, recebo um convite para fazer um fim-de-semana no Alentejo. A herdade era de um amigo de longa data. Tudo bem, já tinha conhecimento da separação dele e também do terceiro casamento, pois o meu amigo fazia questão de me visitar com as novas esposas. Aceitei.

Quando lá cheguei, aquilo estava repleto de carros de luxo. Fui com um amigo, bon vivant, que gostava de beber, mas que faz muito boa companhia. Sempre que me surge algo desse género, pego nele e vou! Tem um sentido de humor apurado e está bem em todas as situações.

Chegámos. A nova anfitriã veio receber-nos com um copo de uísque na mão, com um vestido todo transparente e pronta para dizer mal da sogra… O cumprimento ao meu amigo foi um apalpão nos tomates, aquilo prometia!

Os outros convidados andavam pela herdade. O marido tinha ido a Setúbal buscar uma caixa de sardinhas; a nova esposa, que passou das casas de alterne lisboetas a senhora, não tinha jeito nenhum para tarefas domésticas,

Aqui é que começa a inquietação! Eu fui entrando, na cozinha estava a sogra, senhora de fino trato que aceitava as maluqueiras do filho com alguma tristeza, mas, como era filho único, e ela era viúva, lá iam vivendo.

A discussão já estava feia entre as duas, pois a nova dona de casa não tinha noção nenhuma das quantidades de comida e teimava com a sogra, senhora habituada a receber e a organizar grandes festas.

A dona estava com uma panela de batatas em cima de um fogão industrial que dava para um regimento, não era burra! E depressa se deu conta do erro. Começa então a pedir a todos os convidados para comerem muitas batatas, pois não queria dar razão à sogra.
Ela era simpática, e todos alinhámos na brincadeira, não sobrou uma batata.

Com o calor alentejano e a bebida, não tardou que toda a gente adormecesse por tudo quanto era sítio. O meu amigo, que odeia sossego, saiu para arejar naquele calor intenso e, a abarrotar de álcool, estendeu-se logo no chão.

A dona da casa, estendida em cima dele para lhe fazer respiração boca a boca, quase o matava. Lá a tirámos de cima dele. Aquela festa da alta sociedade parecia mais um circo.
O meu amigo lá se recuperou com alguma dificuldade.

Isto foi a festa mais ridícula a que assisti, o dinheiro e o poder são os valores de hoje. Aquilo só visto! A alta finança toda a beijar a mão à puta, as respectivas esposas fazendo de conta que ela era mais um membro daquela sociedade de hipócritas! Beijinhos, convites, gentilezas...

A pessoa mais verdadeira que ali estava era mesmo a puta. O resto não era nada!
Gente tão fútil e vazia, que já nem se parece com nada; uns com situações óptimas, outros vivendo e usufruindo de sobrenomes ou de algum protagonismo já longínquo, verdadeiros parasitas. Eu e o meu amigo sentados a ver aquela confraria toda a armar-se.

Mas gostei de ver e de analisar aquilo tudo.
Deu-me que pensar, algumas daquelas senhoras davam tudo para estar no lugar da puta, ela era a que menos importância dava àquilo tudo. Notava-se perfeitamente que estava enfadada e farta. Aquela vida de mentira dá de facto muito trabalho.


Há putas que querem ser senhoras, e esta, que já tinha conseguido o estatuto de senhora, queria era continuar a ser puta.