O corno madeirense
A mulher é um autêntico monumento. Jovem, bonita, com um corpo escultural, uma coisa do outro mundo! Bem, onde é que eles foram parar? A uma freguesia perto de Mira.
Ele arranjou trabalho como distribuidor de uns armazéns de fruta; a esposa, numa padaria de uns venezuelanos, também ali por perto.
Tudo bem entre o casal, enquanto o patrão do marido não viu a mulher do seu empregado. A partir dali, aquilo foi um desassossego completo, o patrão nunca mais saiu de casa do empregado para ver como é que havia de lhe comer a mulher.
Como eles viviam numa casa sem nenhumas condições, se é que se podia chamar àquela barraca uma casa, a primeira proposta que ele lhe fez, na condição de ela ser só dele – e do marido, claro –, foi comprar-lhe uma casa.
A madeirense, que até era ambiciosa, nem sequer hesitou, não dando satisfações nenhumas ao marido, pois a pita até era dela. A vizinhança, invejosa, começa com aquele falatório próprio e natural das pequenas aldeias.
No dia da mudança, ele, em vez de ajudar, foi apanhar uma grande bebedeira para a tasca lá do bairro pobre onde morava. Com os falsos amigos recentes a falarem mal da mulher dele toda a noite e a beberem uns copos.
Nunca mais apareceu pelo trabalho, lá ia sobrevivendo e trabalhando um dia aqui, outro ali, à noite a embebedar-se e ir dormir pelos amigos.
O patrão apaixonou-se de tal forma pela madeirense, que, quando chegou o Natal, põe-lhe um jipe cheio de laços à porta, que foi transportado num carro TIR. Estavam todos os vizinhos a ver aquele movimento esquisito que eram as manobras para descarregar a prenda, ninguém sabendo para quem era, nem sequer do que se tratava. Quando por fim conseguem descarregar o jipe, aí deram-se conta de tudo.
Começam a dizer ao marido que ele devia tomar uma atitude, ir lá a casa falar no escândalo que aquilo estava a provocar, que aquilo era a maior vergonha que ali se tinha passado, que ela merecia uma valente tareia, etc., etc.
O corno encheu-se de coragem e foi falar com a mulher, que o recebeu muito bem. Depois de ele lhe dizer tudo o que pensava, chorando como uma criança, falou a mulher, perguntando-lhe se era bom viver em casa de uns e outros e viver na miséria, ou se era melhor usufruir do que lhes estava a ser oferecido? Ele não pensou duas vezes.
Antes corno com conforto do que corno pobre.
O povo deixou de falar nesse assunto. E os três são felizes à maneira deles.
