segunda-feira, janeiro 30

O corno madeirense

Um casal de madeirenses resolve vir para o continente à procura de melhores condições de trabalho. E por cá ficou.

A mulher é um autêntico monumento. Jovem, bonita, com um corpo escultural, uma coisa do outro mundo! Bem, onde é que eles foram parar? A uma freguesia perto de Mira.

Ele arranjou trabalho como distribuidor de uns armazéns de fruta; a esposa, numa padaria de uns venezuelanos, também ali por perto.

Tudo bem entre o casal, enquanto o patrão do marido não viu a mulher do seu empregado. A partir dali, aquilo foi um desassossego completo, o patrão nunca mais saiu de casa do empregado para ver como é que havia de lhe comer a mulher.

Como eles viviam numa casa sem nenhumas condições, se é que se podia chamar àquela barraca uma casa, a primeira proposta que ele lhe fez, na condição de ela ser só dele – e do marido, claro –, foi comprar-lhe uma casa.

A madeirense, que até era ambiciosa, nem sequer hesitou, não dando satisfações nenhumas ao marido, pois a pita até era dela. A vizinhança, invejosa, começa com aquele falatório próprio e natural das pequenas aldeias.

No dia da mudança, ele, em vez de ajudar, foi apanhar uma grande bebedeira para a tasca lá do bairro pobre onde morava. Com os falsos amigos recentes a falarem mal da mulher dele toda a noite e a beberem uns copos.

Nunca mais apareceu pelo trabalho, lá ia sobrevivendo e trabalhando um dia aqui, outro ali, à noite a embebedar-se e ir dormir pelos amigos.

O patrão apaixonou-se de tal forma pela madeirense, que, quando chegou o Natal, põe-lhe um jipe cheio de laços à porta, que foi transportado num carro TIR. Estavam todos os vizinhos a ver aquele movimento esquisito que eram as manobras para descarregar a prenda, ninguém sabendo para quem era, nem sequer do que se tratava. Quando por fim conseguem descarregar o jipe, aí deram-se conta de tudo.

Começam a dizer ao marido que ele devia tomar uma atitude, ir lá a casa falar no escândalo que aquilo estava a provocar, que aquilo era a maior vergonha que ali se tinha passado, que ela merecia uma valente tareia, etc., etc.

O corno encheu-se de coragem e foi falar com a mulher, que o recebeu muito bem. Depois de ele lhe dizer tudo o que pensava, chorando como uma criança, falou a mulher, perguntando-lhe se era bom viver em casa de uns e outros e viver na miséria, ou se era melhor usufruir do que lhes estava a ser oferecido? Ele não pensou duas vezes.

Antes corno com conforto do que corno pobre.

O povo deixou de falar nesse assunto. E os três são felizes à maneira deles.

sexta-feira, janeiro 27

O presente envenenado

Há ideias mesmo tristes! Quem era a mulher que poderia imaginar receber na sua própria casa, e do seu próprio marido, uma puta como presente de aniversário?

Isto para uma lésbica até poderia ser uma surpresa agradável, mas para uma mulher que gosta tanto de macho isto foi o fim do mundo.

Este episódio passou-se assim:
Está uma amiga minha na sua casa a receber os seus convidados, e eis que de repente vê o marido com grande entusiasmo quando a campainha toca.

A mulher fica surpreendida quando ele abre a porta e lhe entra pela casa adentro uma convidada que ela não conhecia de parte nenhuma.

O frio na rua era de cortar à faca, e a prenda vinha de mini-saia e kispo por cima. A princípio parecia que vinha em cuecas, mas depois verificámos que trazia qualquer coisa por baixo.

Os convidados ficaram surpreendidos, e a aniversariante ainda mais, pois não conheciam a criatura de parte nenhuma.

Como ela nunca falou com ninguém a não ser com o marido da dona da casa, pensámos tratar-se de alguma ucraniana animadora de festas para homens. Mas não! A puta era portuguesa mesmo, e a festa lá continuou.

Até que os dois se esgueiraram de mansinho para um canto escuro do terraço, onde estava uma temperatura abaixo de o graus.

A dona da casa estava entretida na cozinha quando uma das convidadas a foi avisar do que se estava a passar no terraço, e aí é que foi bonito: a anfitriã, que até é paciente, perdeu a paciência e pôs a outra para correr.

Depois de lhes dizer para passarem imediatamente para o salão da casa, e que a presença da intrusa não lhe era agradável, a criatura foi vestir o kispo e, quando se esperava que ela saísse, sentou-se novamente ao lado de quem a tinha convidado.

O ambiente ficou desagradável, mas ela pouco se importou com isso e continuou sentada.
Estragou o ambiente, mas a dona da casa, senhora com nível, ignorou-a e continuou dando atenção aos seus convidados como se nada se estivesse a passar ali. Com nervos de aço, aguentou.

Quando os convidados começaram a sair, aí a intrusa cortou-as depois de toda a porcaria que tinha feito, e saiu também.

Qual não foi a surpresa da aniversariante quando o marido, ao pé da porta, se abraça à convidada dele e lhe põe uma mão em cada ombro e ficou a falar-lhe ao ouvido, só eles sabendo o quê.

Depois de terminada a festa, os donos da casa fecharam a porta, e quando ele estava à espera da reacção da mulher, ela só lhe disse: «Vai dormir para o quarto de hóspedes, que amanhã falamos.»

No dia seguinte, ele sai para ir tratar do compromisso que tinha assumido ao ouvido dela.

Quando telefona para casa a dizer que vinha a caminho, a mulher respondeu-lhe que voltasse só à noite para levar as coisas dele.

Todos os países deviam ser governados por mulheres como esta.
E este planeta seria bem diferente.

quarta-feira, janeiro 25

O vison voador

Era uma vez uma jovem com 17 anos de idade que viajou para Angola para acompanhar o seu marido numa comissão militar.

Era pobre, pois o nosso Estado pagava mal aos militares, mas, como sonhar é de graça, ela sonhava com coisas boas e caras. De momento não podia, mas a sua força de vontade era do tamanho do mundo.

Um dia, chega a Luanda uma revista com uma grande actriz já falecida que era a saudosa Laura Alves. Como foi já não me lembro, mas a tal jovem conseguiu dois bilhetes para a tal revista.

Essa jovem ficou deslumbrada com o que viu, pois a artista principal fez a sua maquilhagem no palco (fazia parte da peça) e, depois de arranjada, vestiu um lindo casaco de vison. A tal jovem nunca tinha visto nenhum, mas adorou e jurou a ela própria que um dia também teria um.

Os anos foram passando, e essa jovem, como era lutadora, nunca desistiu do seu sonho.

Entretanto dá-se essa coisa a que chamam o 25 de Abril o que deixou os Portugueses que viviam nas colónias mais pobres que nunca, tiveram todos de abandonar à força as suas casas e todos os bens que tinham, e lá regressaram a Portugal, com uma mão à frente e outra atrás.

Tristes e discriminados, pouco se importaram com isso e continuaram a lutar com todas as forças que tinham. Não foi fácil, pois perderam-se os contactos com os amigos, todos os bens que tinham e até os seus animais de estimação. Ninguém cruzou os braços e muito menos a jovem que sonhava com um casaco de vison.

Trabalhou dia e noite, emigrou uns tempos para os Estados Unidos, mas, como tinha uma filha pequena, regressou, pois já tinha ganho dinheiro para comprar uma casa.

Continuou determinada a conseguir tudo, e isso é bom, pois nós nunca devemos desistir dos nossos sonhos.

Os pais dessa jovem tinham dinheiro, mas era deles, e a tal jovem sempre gostou de se valer dos seus recursos e não de favores.

A sua vida continuou, lutando e amealhando quanto podia, já sozinha com a sua menina, pois entretanto tinha-se divorciado.

Emigrou mais uns tempos, desta vez para a Venezuela, com um pouco mais de dinheiro voltou para junto da sua filha, Florbela, que continua a ser a grande paixão da sua vida.

Os anos foram passando, e a tal jovem que tinha um sonho está hoje a escrever este texto com lágrimas nos olhos ao lembrar um passado que não foi fácil, mas que valeu a pena, pois hoje está vestida com um lindo casaco de vison. Essa jovem era EU.

Nunca desista dos seus sonhos, pois se tivermos força de vontade, nada pode impedir que eles se tornem realidade. O que é preciso é determinação, coragem e força de vontade.

segunda-feira, janeiro 23

A passagem de ano dos galdérios

Em Coimbra morre-se de tudo menos de tédio.

Imaginem do que se lembraram alguns amigos: fazer uma passagem de ano onde não teriam de levar as mulheres deles.

Nada mais fácil do que fazerem a festa na véspera, pois no próprio dia, e como é natural, teriam de levar a família. Puseram-se todos de acordo e lá começaram os preparativos para a grande farra.

Antes de mais, arranjar local. Não foi difícil. Conseguiram um armazém de um senhor já de uma certa idade ali perto da Mealhada. Depois de encomendarem o leitão, arranjaram os pratos e os copos descartáveis. Como o frio era mais que muito, todos colaboraram e lá carregaram a lenha para aquecer o ambiente.

Depois de tratarem de todos estes pormenores, faltava o mais importante: arranjarem duas stripers, o que também não foi difícil, com a oferta que por aí anda.

A partir daí chega a noite de sexta-feira, e lá começam eles a telefonar uns para os outros inventando todo o tipo de desculpas como carros avariados, etc., e lá se juntaram todos dentro do horário previsto.

Fizeram uma grande fogueira cheia de troncos e lá conseguiram aquecer o casarão. Começam a beber e a comer feitos loucos até apanharem tamanha bebedeira, que, quando começou a sessão de strip, eles faziam bicha para lamberem as artistas contratadas.

Com o que os galdérios nunca contaram, ao convidar o ancião proprietário do armazém para ele aparecer por lá, foi que o senhor aparecesse mesmo. O senhor entra, vê aquele espectáculo triste, começa a sentir-se mal... e só teve tempo de perguntar se as línguas daqueles homens eram as piças do futuro.

Eles ficaram sem palavras, pegaram no senhor, que estava de facto mal, e acabaram a noite no hospital.

Isto só pode ter sido praga de alguma das mulheres deles.

Andaram eles oito dias a fazer os preparativos para uma festa que prometia ser de arromba, e estão agora numa tristeza que só visto, e ainda por cima entraram em pânico com medo que as mulheres descubram o que se passou naquela noite.

Fartam-se de visitar o velho, não saem lá de casa com medo de que ele dê com a língua nos dentes, pois as ucranianas foram também atrás deles para o hospital.

Mas que miséria de vida que eles estão a passar, começaram mesmo o ano com o pé esquerdo, coitados.

Agora digam-me se este jet-set cá de Coimbra não é gente com imaginação?

A verdade é que a coisa até nem foi mal pensada, só que estes planos de vez em quando dão para o torto.

quarta-feira, janeiro 18

A festa da varanda

Um amigo bon vivant meteu-se há uns anos num senhor sarilho.

Casado com uma hospedeira da TAP, tem um casamento normal, podemos dizer que faz a mulher feliz, este sabe viver!

Quando a mulher está em terra, ele é um marido exemplar. Como ele sabe a escala dela, logo que ela está no ar, ele organiza cada festa, que é de rebimba o malho, vale tudo.

Como a mentira tem perna curta, ele dessa vez levou um susto danado.

Os funcionários da TAP fizeram uma greve, e a mulher veio para casa a meio da festa.

Pelo que me contaram, aquelas duas amigas do episódio do desconfiado, as que não tinham dinheiro para pagar a conta, também lá se encontravam, pois estavam presentes em tudo o que era duvidoso.

A mulher, com as malas nas mãos, não esteve para andar à procura das chaves, e tocou à campainha. O dono da casa comunica aos amigos o que se estava a passar, e vá de começar a pôr mulheres pela varanda abaixo.

O edifício tinha um terraço recuado que ficava aí a metro e meio da varanda do apartamento do casal, as putas lá se acomodaram debaixo, e ao frio durante algum tempo, que lhes pareceu uma eternidade. Elas não podiam sair porque não queriam correr o risco de ser vistas, e escadas também não viram nenhuma.

Dos outros prédios, os mirones não lhes davam paz, para ver o que se estaria ali a passar.
Em pleno Inverno, oito mulheres luxuosamente vestidas aninhadas debaixo de uma varanda como sardinha em lata... era, no mínimo, estranho.

A mulher chega e encontra uma mesa recheada de tudo, pergunta o que se passa ali, e logo um deles responde que tinha feito anos e que a mulher não o deixava fazer a festa lá em casa.

A dona da casa sentou-se à mesa, talvez esperando quem iria aparecer mais.
Não teve sorte nenhuma, porque na verdade já tudo se tinha passado antes de ela chegar.

O dono da casa, passado algum tempo, e com a maior das descontracções, diz para o falso aniversariante: «Olha, eu vou ouvir uns fados com a minha mulher, e quando chegar não quero nem um prato sujo.»

Foi a sorte das putas, pois estavam cheias de medo que os mirones chamassem os bombeiros para as tirar de lá.
Parece que se riram o tempo todo, para dar a ideia de que tudo estava a correr bem.
O frio era de matar, não fossem os bons casacos de peles que as putas usavam, e tinham morrido ali mesmo congeladas.

É claro que voltaram a ser convidadas, pois eles ficaram com a água na boca. Não tinha havido tempo para mais nada que não fossem as apresentações.
As putas não aceitaram.
Um dia, Deus disse: «Sejam bons, mas não sejam tolos.»

sábado, janeiro 14

A baixinha

Numa freguesia perto de Vagos, vive uma moça baixinha ainda jovem que por sinal adora homem.

Divorciada recentemente, arranjou emprego numa instituição para pessoas idosas, um trabalho para o qual não tem vocação nenhuma. Cuidar de doentes acamados, outros doentes mentais, é de facto difícil, é evidente que para se trabalhar com pessoas deste tipo é preciso vocação, paciência, enfim!, este trabalho está a dar com ela em doida.

Num destes dias, mal saiu do trabalho, foi ter a casa de uma amiga para se lamentar da vida que estava a ser tão dura para com ela, lamentava-se de que o ordenado quase não chegava para pagar tantos medicamentos, eram comprimidos para as dores nas costas, para as dores de cabeça, para o stress, etc.

Ora bem, a amiga, mulher vivida e inteligente, achou que ela estava a precisar era de homem, e diz-lhe: «Olha, sabes o que nós vamos fazer? Vamos vestir-nos como deve ser e vamos as duas para uma danceteria que há ali para os lados de Albergaria.»

Foi o que a baixinha quis ouvir. Foram, e logo à chegada a baixinha arranjou par para dançar, um senhor que também estava a divorciar-se. A baixinha não parou de dançar a noite toda, e nem se lembrou mais dos comprimidos.

No sábado seguinte, a cena foi a mesma, e dançar a noite inteira nos braços de um homem dá para se combinar muitas coisas, as quais ela não contou à amiga, com medo de lhe falhar a boleia de que ela tanto precisava.

Até que no sábado seguinte a amiga já teve de entrar sozinha, pois o cavalheiro estava à porta para a levar a tomar um café.

O homem meteu a baixinha na carrinha de caixa aberta, pois era vendedor de sucata, e lá seguiram os dois para uma propriedade onde ele tinha todo o ferro-velho e também uma barraca de madeira, tão enfeitada e com tantas flores, que a baixinha ficou sensibilizada.

Foi uma tarde de núpcias que ela não vai esquecer tão cedo, pois o homem era impotente.
Começa a triste cena com ela a tentar pôr o material do homem em pé, o que, diga-se de passagem, estava a ser a tarefa mais difícil da vida dela.

Depois de fazer tudo quanto estava ao seu alcance, aquela coisa morta lá deu um sinal de vida, mas o tempo de meter um preservativo foi fatal para aquela piça sem vida.

A pequenina é teimosa, vai à carteira buscar um creme das mãos e, esfrega daqui, esfrega dali, consegue dar um pouco de vida ao morto. Claro que a respiração boca a boca também ajudou. Desta vez, foram mais rápidos a meter o preservativo e lá conseguiram enfiar o morto na cova.

Já doida de gozo, a baixinha ia morrendo quando o homem lhe diz todo contente: «Já está!» E ela que ainda mal tinha começado! Quando ele sai de cima dela, fica como louca, pois não tinha tido tempo para nada. Pior ainda, o preservativo tinha ficado lá dentro.

Naquela confusão toda que ela fazia por causa daquele incidente, o homem diz-lhe para ter calma, que ia já tratar daquilo! Sempre simpático e paciente, o homem ajoelha-se, mete-lhe uma almofada por debaixo do cu, manda-a abrir as pernas e começa a escarafunchar e a meter os dedos por tudo o que era sítio como se de um ginecologista se tratasse.

Então ela começa a gritar «mete, tira!», «mete, tira!», até que ele compreendeu o que ela queria, e foi assim que resolveu aquele problema dela.

A procura do preservativo continuou, e passado um bom bocado ele consegue tirar aquilo de dentro dela e começa a mostrar-lhe aquela porcaria numa alegria louca, pois fazia questão que ela visse que aquilo tinha um pingo lá dentro.

E lá continuou ele às voltas pela barraca com o preservativo na mão como se de um troféu se tratasse.

quarta-feira, janeiro 11

O bruxedo

Duas amigas estavam decididas a divertir-se um bocado à custa de um garanhão amigo, e começam a arquitectar um plano que logo puseram em prática!

Primeiro passo: ir secar um lagarto que uma delas tinha numa garrafa de um licor chinês que se chama saquê. Partiram a garrafa e meteram o lagarto no microondas para o secar.

Depois disso foram comprar um lindo ramo de rosas, meteram o lagarto lá dentro, embrulhado em papel de celofane com um bilhetinho que dizia «Já estás fodido», arranjaram um arrumador de carros que a troco de uma boa gorjeta o foi levar ao consultório do amigo delas.

A funcionária, friamente, como nos contou o arrumador, deixou-o em cima da secretária do médico.

Cerca das cinco da tarde, a que é astróloga recebe um telefonema do médico que até não era nada crente a contar-lhe o que lhe tinha acontecido, e a perguntar-lhe o que poderia ser aquilo.

Era o que ela estava à espera para lhe dizer que aquilo era de certeza uma amarração à potência, e dizendo-lhe que só depois de ele ter relações é que ficava a saber se estava impotente!

Mas que grande inquietação, às oito da noite já o amigo estava a telefonar para dizer que não tinha conseguido fazer nada! As duas amigas até já estavam a ficar com remorsos daquilo que tinham feito. Então, a que era astróloga diz-lhe: «O melhor é ires experimentar outra vez para veres se não é só sugestão tua.»

O homem não teve mais sossego, e às onze da noite já estava novamente ao telefone quase a chorar e a dizer que até tinha mudado de parceira e que a piça não dava sinal de vida.
Pergunta sacramental! Como é que ele ia agora resolver aquilo?

«Tem calma!», responde ela, que já estava a ficar com pena dele. «Tudo se resolve. Na próxima sexta-feira vais passar em água corrente com uma vela acesa na mão, e vamos resolver o teu problema!»

Aí ele pediu-lhe que fosse com ele. Ela responde que não, que tinha de ficar a fazer as rezas para ele ficar bom. Ele acreditou e disse-lhe onde ia fazer o ritual. Foi aquilo que elas quiseram ouvir.

Na sexta-feira seguinte foram espreitá-lo e mataram-se a rir com aquele matulão em cuecas a atravessar o ribeiro. Nunca lhe contaram nada. Até agora, claro!

Cuidado, vejam bem como a sugestão pode pôr a vida de uma pessoa normal completamente às avessas.

segunda-feira, janeiro 9

O artista plástico

Estou aqui a olhar para o computador com vontade de escrever, mas sem saber por onde começar. Porque isto das escritas não é tão fácil como eu pensava. No nosso estado de espírito tem de haver criatividade e imaginação, e às vezes isso falta.

Lembrei-me agora de repente de um amigo meu, artista plástico, considerado um dos melhores aguarelistas vivos.

Um dia, ele telefona-me e pede-me para ir tomar um café, pois queria fazer-me um pedido.
Vou ao encontro dele e pergunto-lhe:
«Então, o que queres pedir-me?»

Ele diz-me com algum acanhamento: «Sabes, tenho uma exposição dentro de dias, e queria pedir-te oitenta contos para as molduras.»

Eu sou nativa de Capricórnio e tenho jeito para tudo menos para a carreira diplomática, respondo-lhe de imediato: «Deves ser é doido! Vai já para o teu atelier e pinta-me a Igreja de Santo António dos Olivais, que eu já te encomendei há muito tempo!, e em vez de oitenta eu dou-te cem contos por esse quadro.»

Ele olhou para mim triste, começa por me dizer que está sem inspiração, que não ia sair nada de jeito, que não estava num dia bom, etc.

Olhei para ele sem compreender muito bem aquela conversa da falta de inspiração e claro que lhe emprestei o dinheiro! Isso estava fora de questão, pois é um homem de honra, e eu não tinha dúvidas nenhumas de que ele me pagava. Só que nessa altura eu não tinha noção de que de facto o estado de espírito conta, e muito, nestas coisas. Desculpa, António! Nem queiras saber como hoje te compreendo.

O blog que estou a escrever é, para mim, uma brincadeira, nem sequer estou preocupada se vou ter muitas ou poucas visitas. Estou a escrever porque de facto me dá muito prazer partilhar estas histórias reais com outras pessoas.

Até porque a pessoa que mais se tem divertido ao lembrar estes factos que fui armazenando na minha cabeça ao longo dos anos sou eu mesma.

Aqui eu faço um apelo: ajudem os artistas, pois são pessoas que nasceram para dar colorido à nossa vida.

O que seria a nossa casa sem um bom quadro, um bom livro, ou ainda um domingo sem uma boa revista de teatro ou até um bom bailado?
Um tédio, sem dúvida!

quinta-feira, janeiro 5

A funcionária pública em férias

Não sei porquê, mas quando acordo a pensar que vou ter um dia tranquilo, surge logo cada problema para eu resolver que é o fim do mundo.

Pois este começa assim:

Aparece-me uma amiga da minha terra que é funcionária pública há já alguns anos, é do signo de Touro e, como tal, boa pessoa.

Não estranhei a visita porque de vez em quando ela aparece, umas vezes com um saco de pinhas para a minha lareira, outras com uma bonita planta. É generosa e gosta de mim.

Desta vez ela senta-se e começa a fazer-me perguntas sobre a prostituição em Coimbra, sobre os locais de engate, etc.

«Olha», respondo eu, «costumo vê-las por tudo o que é sítio ali pela baixa, há prostitutas na Adelino Veiga, no Bota Abaixo e também ao pé da estação.»

Mas fiquei intrigada e pergunto: «Afinal o que é que tu queres às putas?»
«Nada. Só que estou de férias e preciso de ganhar dinheiro para trocar de carro.»

Fiquei a olhar para ela talvez surpreendida!
«Não esteja a olhar assim para mim, porque eu vou meter-me nisso, e você tem de me ir lá pôr!»

Começo a rir à gargalhada. Não passava pela cabeça de ninguém, e muito menos pela minha, que ela quisesse fazer de mim chulo!

Como nós estamos habituados a pedir favores uns aos outros lá na terra, isto para ela era como se me estivesse a pedir para lhe abreviar uma consulta que estivesse em lista de espera ou qualquer coisa assim no género.

Passei-me e disse-lhe: «Tu deves estar maluca, eu não vou levar-te a parte nenhuma!»
Resposta dela: «Tem de ir. Eu conheço alguma coisa em Coimbra a não ser o caminho para a sua casa?»

Moía, a dizer que não, e ela a insistir de tal maneira, que acabei por ir mesmo!
Capricórnio contrariado não é fácil.
Mas ela entendeu que tinha de ser eu a ir lá levá-la e não desistiu até que a meti no carro.

Nem passa pela cabeça de ninguém como eu me sentia. Parecia que toda a gente sabia o que eu ia fazer.

Quem me conhece sabe que não sou nada moralista, que levo tudo na brincadeira e que entendo que cada um de nós só tem é de fazer aquilo que lhe apetece, mas, enfim, talvez o meu espírito não estivesse a gostar daquilo.

Então, já na baixa de Coimbra, connosco a passar de carro, eu ia-lhe dizendo: «Estás a ver aquelas mulheres a ver montras? Não estão a comprar nada! São putas, entendes? Estão à espera de clientes! Estás a ver aquelas ao pé da estação? Não estão para viajar, estão à espera de clientes, entendes?»

Até que ela, já farta de me aturar, diz:
«Ó mulher, tenha calma! Eu não quero que vá tomar conta de mim, só quero fazer um reconhecimento dos locais! À vinda, já me pode deixar ficar, pois já vi tudo.»

Vim para casa preocupada com ela, fiquei todo o dia e parte da noite também à espera de que ela regressasse.
Ia espreitando pela janela para ver se o carro dela lá continuava, pois gosto imenso dela e não queria que ela se fosse embora zangada comigo. Tinha consciência de que não me tinha portado lá muito bem!

Às tantas da noite lá aparece ela toda contente, acompanhada por um cavalheiro com um carro de matrícula espanhola, despedindo-se com um beijo de mão. Até parecia que estava a chegar uma primeira-dama! E eu na varanda a ver aquilo, pois não conseguia dormir sem ela chegar.

A minha amiga subiu com uma caixinha de bolos para mim, mostrou-me um maço de notas e foi-se embora para a terra dela, pois queria estar cedo em Coimbra no outro dia.
O mês passou depressa, e ela resolveu tirar uma licença sem vencimento durante um ano.
Não arranjou chulos, e hoje tem um carro de alta cilindrada. Parece uma empresária bem de vida.

Já está novamente na instituição em que trabalhava antes de andar na putice, e só eu e ela é que sabemos o que se passou.

Hoje, vou novamente encontrar-me com ela em Cantanhede. Ela vai com outra amiga lá da zona que também tem histórias incríveis.
Vou cheia de curiosidade para ouvi-las. Tenho a certeza de que trago material que chegue para escrever uns tempos, além do prazer que me dá ir falar com gente simples, pois a hipocrisia de Coimbra mata-me de tédio, aqui ninguém diz o que pensa mas sim o que fica bem! As pessoas têm muito cuidado com as palavras, não estão à vontade umas com as outras. Vive-se muito de fachada, até parecem robôs.

E os convites de Coimbra!? São assim: «Aparece!» «Gostei tanto de te ver!» Só que nunca dizem o dia nem a hora a que devemos aparecer. É giro.

Quanto à minha amiga, não olhou a meios para atingir os fins.
Mas que teve muita coragem, lá isso teve.

segunda-feira, janeiro 2

A alternadeira

Num dia de Verão, recebo um convite para fazer um fim-de-semana no Alentejo. A herdade era de um amigo de longa data. Tudo bem, já tinha conhecimento da separação dele e também do terceiro casamento, pois o meu amigo fazia questão de me visitar com as novas esposas. Aceitei.

Quando lá cheguei, aquilo estava repleto de carros de luxo. Fui com um amigo, bon vivant, que gostava de beber, mas que faz muito boa companhia. Sempre que me surge algo desse género, pego nele e vou! Tem um sentido de humor apurado e está bem em todas as situações.

Chegámos. A nova anfitriã veio receber-nos com um copo de uísque na mão, com um vestido todo transparente e pronta para dizer mal da sogra… O cumprimento ao meu amigo foi um apalpão nos tomates, aquilo prometia!

Os outros convidados andavam pela herdade. O marido tinha ido a Setúbal buscar uma caixa de sardinhas; a nova esposa, que passou das casas de alterne lisboetas a senhora, não tinha jeito nenhum para tarefas domésticas,

Aqui é que começa a inquietação! Eu fui entrando, na cozinha estava a sogra, senhora de fino trato que aceitava as maluqueiras do filho com alguma tristeza, mas, como era filho único, e ela era viúva, lá iam vivendo.

A discussão já estava feia entre as duas, pois a nova dona de casa não tinha noção nenhuma das quantidades de comida e teimava com a sogra, senhora habituada a receber e a organizar grandes festas.

A dona estava com uma panela de batatas em cima de um fogão industrial que dava para um regimento, não era burra! E depressa se deu conta do erro. Começa então a pedir a todos os convidados para comerem muitas batatas, pois não queria dar razão à sogra.
Ela era simpática, e todos alinhámos na brincadeira, não sobrou uma batata.

Com o calor alentejano e a bebida, não tardou que toda a gente adormecesse por tudo quanto era sítio. O meu amigo, que odeia sossego, saiu para arejar naquele calor intenso e, a abarrotar de álcool, estendeu-se logo no chão.

A dona da casa, estendida em cima dele para lhe fazer respiração boca a boca, quase o matava. Lá a tirámos de cima dele. Aquela festa da alta sociedade parecia mais um circo.
O meu amigo lá se recuperou com alguma dificuldade.

Isto foi a festa mais ridícula a que assisti, o dinheiro e o poder são os valores de hoje. Aquilo só visto! A alta finança toda a beijar a mão à puta, as respectivas esposas fazendo de conta que ela era mais um membro daquela sociedade de hipócritas! Beijinhos, convites, gentilezas...

A pessoa mais verdadeira que ali estava era mesmo a puta. O resto não era nada!
Gente tão fútil e vazia, que já nem se parece com nada; uns com situações óptimas, outros vivendo e usufruindo de sobrenomes ou de algum protagonismo já longínquo, verdadeiros parasitas. Eu e o meu amigo sentados a ver aquela confraria toda a armar-se.

Mas gostei de ver e de analisar aquilo tudo.
Deu-me que pensar, algumas daquelas senhoras davam tudo para estar no lugar da puta, ela era a que menos importância dava àquilo tudo. Notava-se perfeitamente que estava enfadada e farta. Aquela vida de mentira dá de facto muito trabalho.


Há putas que querem ser senhoras, e esta, que já tinha conseguido o estatuto de senhora, queria era continuar a ser puta.