quarta-feira, dezembro 14

O gato algarvio

No mês de Julho de 2003, uma amiga que mora na Suíça mas que tinha estado a viver em Portugal oito meses resolveu ir novamente para o país onde vivia há vários anos, e onde tinha as suas amizades, até porque de facto ela já poucas afinidades tem com o nosso país.

Numa das últimas viagens que fez ao Algarve, onde costumava ir jogar golfe, encontrou um gatinho vadio muito maltratado. Como gosta de animais, tratou logo de lhe dar de comer e um banho.

Ela já tinha uma cadelinha, mas isso não a impediu de levar também o gato para casa. Fez-lhe as vacinas e leva o bichano com ela para a Suíça. Só que aquele gato era a reencarnação do demónio.

Com duas filhas pequenas, a cadela e o gato, mete-se no carro e pôs-se a caminho, até porque queria chegar antes do camião que transportava as mobílias.

Aquela odisseia começa em Espanha, quando tira as filhas, a cadela e o gato para irem comer e meter combustível no carro. O gato fugiu-lhe de imediato para os telhados da estação de serviço. Veio um carro de bombeiros e lá conseguem trazer aquela reencarnação do demónio para baixo. Tirou a trela à cadela e meteu-a no gato.

Passados cerca de quinze dias, manda-me chamar para fazermos umas férias no Sul de França. Como ela se tinha separado há pouco tempo, eu fui, porque achei que ela estava a precisar muito de mim por perto.

Quando lá cheguei, fiquei espantada, a casa estava com caixotes até à porta de entrada. Descalcei-me para saltar por cima dos caixotes, quando o gato me salta em cima. Apanhei um susto e também umas arranhadelas. Eu ia com uma saia de franjas, e o gato passou-se, pois atirava-se a tudo o que mexesse.

Não me agradou muito a ideia de ter de ficar a coabitar com aquele gato algarvio, mas em contrapartida não podia vir embora e deixar aquela casa no estado em que se encontrava, pois os colchões ainda estavam no chão. Perguntei o porquê daquela situação, e a resposta que consegui obter foi que os suíços, quando está sol, vão para a piscina ou para o lago. Calei-me, achando que, quando uma cabeça está desorganizada, o resto também está.

Em três dias tivemos de pôr aquela casa funcional, pois de outra maneira não ia de férias. Aí é que começa outro problema: onde ficavam os animais?

Fomos tomar um café e comprar os jornais para ver de hotel para os bichos. Para a cadelinha era fácil, fomos a casa de um senhor que faz os salvamentos quando há as avalanchas e que tinha seis cães de montanha lá em casa. Enquanto o dono da casa gentilmente nos fazia um chá, os outros cães que ele lá tinha hospedados começaram todos a saltar-me para cima, como que a pedir socorro.
Quando de lá saímos, eu disse que não deixava a cadelinha ali.

Com poucas soluções à vista, eis que de repente nos lembrámos da Odete, uma moça da Vagueira que tem um restaurante em Lausana. Como conhece muita gente, lembrou-se logo de um senhor vizinho que vivia só e era reformado. Fomos lá, e o problema ficou resolvido. No outro dia, pegámos nas camas, nas latas de comida, nas taças, na cadelinha, naquela reencarnação do demónio, e fomos levá-los a casa do senhor.

A verdade é que nós tínhamos as pernas de tal forma arranhadas, que já nem estávamos em condições de pôr um biquíni. Ao fim de três dias sem aquela coisa diabólica a trepar-nos pelas pernas acima, e com o calor do Sul de França, as crostas começaram a cair.

Os dias passaram depressa, e regressámos à Suíça, deixámos as malas em casa e fomos buscar os animais. Bem, a sala do senhor estava um caos, os sofás com a espuma e as molas de fora, os cortinados... aquilo já não era nada a não ser uns fios pendurados nuns paus, o senhor com ligaduras nas pernas, pois era diabético e os arranhões não cicatrizavam... A verdade é que a reencarnação do demónio também não lhe dava tempo.

Acabámos por comprar um sofá ao senhor, ficámos amigos e ainda hoje ele passa os Natais lá em casa, pois é uma óptima pessoa. O gato aguentou-se lá por casa quase dois anos, fazendo grandes ausências e voltando, até que um dia desapareceu de vez.

Estas férias com o gato algarvio vão ficar na minha memória até ao resto da minha vida. E ainda hoje me pergunto como é que uma coisa tão pequena conseguiu desorganizar a vida a três pessoas! Acho que aquilo era mesmo o demónio disfarçado de gato.