terça-feira, dezembro 20

A mestiça

Estou eu a fazer umas espetadas no meu terraço, ao fim do dia, quando o meu telefone começa a tocar.

Com pouca vontade, pois estou cheia de fome, lá atendo! Sentimento raro: quando vi a seca que era, fiquei cheia com pena de mim mesma.

Esta cliente tinha acabado de chegar de Paris, aonde foi fazer compras.
A primeira coisa que fez quando regressou foi meter-se no carro e ir a casa do amante, na Costa Nova, mas o que viu não lhe agradou nada!

A cama estava em estado de sítio! Além de encontrar uma roupa interior que não era dela, aquilo mais parecia que tinha passado ali um furacão, «Se calhar é alguma fidalga. Que inferno, meu Deus!»

A criatura sente-se a pessoa mais infeliz do mundo, chora que se mata e começa a arrancar os cortinados todos, pois tinha sido ela quem os tinha comprado. O marido é um empresário bem de vida, e ela é uma puta mimada que vai para a cama com tudo quanto é homem.

Aquilo continua noite dentro, e o marido a telefonar a saber dela, que o ia empaliando com desculpas em que só corno mesmo é que acredita.

Mas, como diz a sabedoria popular, não há puta sem sorte.
Ela não era burra. O marido tinha o dinheiro e a posição social, o amante tinha o que ela mais gostava – sexo com fartura.

Comi tudo frio, já sem grande vontade e farta desta vida.
Pus-me a pensar e achei que os psiquiatras têm uma vida muito parecida com a minha, coitados! Descarregam tudo o que é telha, neuroses e frustrações para cima de nós. Será que esta gente não se lembra de que nós também temos sentimentos, os nossos problemas, as nossas paixões, os nossos desgostos...?
Estas putas finas dão cabo da paciência a um santo!

É por estas e por outras que eu, de vez em quando, faço a mala e desapareço oito dias.
Nem eu mesma chegarei a saber se é por vingança ou desespero! Mas que lhes faço isto com alguma frequência, faço!

O meu dia hoje começou mesmo mal.
Logo pela manhã, chegou aqui uma rafeira qualquer que ficou aí com a exploração de uma cantina e que me veio pedir para eu lhe tirar as cartas.

Achei bem, pois a mulher já estava a ficar cheia de banhas e de sebo por não se mexer.
Claro que lhe apareceu logo um artista igual a ela, até porque há sempre um testo para uma panela.

O homem começa a ajudar a carregar as grades, a levar o lixo para a rua, enfim, cheio de atenções!

Está-se mesmo a ver o que é que ele queria.
Ela também sabia, só que veio armada em ingénua para ver o que é que eu dizia. Foi duro! Ela perguntava-me o que é que havia de fazer, pois tinha muito medo do marido, mas que simpatizava com ele e começava novamente o relambório.

«O que é que acha?», perguntava ela.
Até parece que ela queria que as cartas que eu lhe estava a tirar a mandassem ir foder!
«Vou ou não vou?», voltava a perguntar.
Eu estive meia hora a dar sempre a mesma resposta: «Sei lá! Se lhe apetece, vá; se não lhe apetece, não vá!»

Voltava à carga e a moer-me, e eu a dar a mesma resposta: «Sei lá! Se lhe apetece, vá; se não lhe apetece, não vá!»
«Mas o que é que as cartas dizem?», queria ela saber.
Aqui é que eu me passei, e respondi-lhe: «As cartas aconselham prudência, não estão a mandá-la ir foder. Agora faça o que quiser: se lhe apetece, vá, e se não lhe apetece, não vá.»

A isto eu chamo uma conversa filha-da-puta, pois tinha a certeza de que ela estava doida para ir com ele para a cama, só que queria culpar alguém para o caso de a coisa dar para o torto.

Eu sei que me passo de vez em quando, e também sei que, como conselheira espiritual, não devia perder nunca a postura, mas enfim! Sou humana, e de vez em quando salta-me a tampa! Todos temos os nossos limites!

Não tenham dúvidas de que isto é difícil, pois cada puta é mais refinada que a outra.