A devota
Esta senhora, que eu conheço de longa data, já não me surpreende muito.
De qualquer maneira, gosto sempre de a ouvir, pois cada romance que ela arranja é mais triste que o outro.
O marido é comandante de navios de bacalhau, o que lhe dá imenso tempo para ela fazer tudo quanto lhe dá na real gana!
Há uns tempos apaixonou-se por um jovem padre da mesma aldeia que ela, depois de várias tentativas de sedução e de correr todas as paróquias onde ele rezava missa, isto começa a ser incómodo para o padre, que nada queria com ela e resolve pedir uma transferência para bem longe, para o Norte do País.
Isto para ela não foi grande impedimento, que logo arranjou um esquema para continuar as investidas, desta vez com requintes de prostituta.
Arranca para o Norte, de manhã bem cedo, para assistir à primeira missa que ele ia celebrar, e meteu-se na primeira fila, como era habitual! O padre deve ter ficado surpreendido, mas lá começa o ritual e os preparativos.
Quando está em pleno sermão, ela abre o casaco comprido preto e mostra-se tal e qual Deus a pôs ao mundo. O padre ficou atordoado – segundo o relato dela –, mas logo se recompôs e continuou firme no que estava a fazer.
O sacristão, que tinha assistido a tudo, agarrou nela por um braço e convidou-a a sair.
Ela não se deve ter ralado muito, porque à noite foi para uma discoteca, no Porto, onde engata um ladrão de automóveis.
Aí começa nova etapa da vida dela e nova rotina também.
Começou a deitar-se à hora a que costumava levantar-se para ir para a missa.
O ladrão era do pior, só conseguia roubar carros que estivessem abertos e com a chave na ignição, dada a pouca destreza dele.
Isto era cansativo para ela, que tinha de conduzir noites inteiras à espera de que algum condutor mais distraído se esquecesse da chave no carro enquanto ia comprar cigarros.
Estava farta disto, mas, como tinha medo dele, não sabia como fazer.
Por fim, arranja uma maneira para o matar, e veio cá a casa para ver se eu concordava com ela.
O método até estava bem pensado!
Ele era doente do coração, tinha umas crises de ficar de cama, e aí é que ela o lixava com dois ou três comprimidos de Viagra no chá.
Ela foi-me contando todo o esquema de como ia acabar com a raça ao amante.
Deixo de a ouvir e começo a ver a forma mais convincente de lhe tirar tal ideia da cabeça.
O caso estava a tornar-se demasiado perigoso.
Estas situações não são tão lineares assim, primeiro porque ninguém tem o direito de tirar a vida a outra pessoa, e depois, quando chegasse a hora da verdade, ela não assumia nada e ia pôr as culpas em alguém. Ora, a pessoa que ela iria culpar podia muito bem ser eu.
Começo por lhe dizer que o plano dela estava de facto muito bem elaborado, mas que um espírito revoltado poderia bloquear a vida sentimental dela e que nunca mais a deixaria ser feliz com outro homem.
Poderia até começar a aparecer-lhe durante a noite, etc., etc...
Ela ficou a olhar para mim já assustada, e eu vi que tinha a batalha ganha. O que nunca se deve fazer é contrariar uma pessoa desequilibrada.
Acabou por se ir embora, triste, ao ver que o seu plano não era bom e que o seu problema estava sem fim à vista.
Não fosse esta mulher uma pessoa crente, e o ladrão já estava a fazer tijolo.
Mas como tudo na vida tem uma solução, o problema acabou por se resolver da seguinte maneira:
Uma noite em que os dois andavam naquelas tristes digressões nocturnas à espreita dos condutores mais distraídos, acabaram por encontrar um carro a trabalhar sem o condutor lá dentro. Ele salta do carro que ela conduzia e, num abrir e fechar de olhos, foge com o carro roubado.
Ela, que segue atrás dele, avista um carro da GNR junto a um bar, telefona-lhe a dizer-lhe que vai beber uma água, e conta tudo o que se estava a passar.
Para já, ela tem o problema resolvido sem usar o viagra, pois o fraco ladrão foi preso na mesma noite. Vamos ver o que se passa quando ele sair da cadeia.

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