quinta-feira, dezembro 29

O boi

Hoje tive uma surpresa que me deixou contente. Encontrei uma moça da minha terra que já não via há algum tempo.

Fomos as duas tomar um café, e começámos a recordar algumas histórias do passado, quando de repente me lembrei de lhe perguntar se o boi já tinha aparecido! Ela fartou-se de rir, e eu também.

Ainda ela era casada quando se engraçou por um rapaz lá da terra. Em pequenas freguesias, todos nos conhecemos uns aos outros, e esta história é famosa, pois o rapaz até era o melhor amigo do marido.

Num dia em que estão nos copos os dois, o rapaz lembra-se de que tem um compromisso, deixa o amigo já bem bebido na tasca, e sai a correr para casa deste.

O que nunca lhe passou pela cabeça foi que o outro se lembrasse de ir para casa tão cedo, que por pouco os apanhava na cama.

Foge a correr e com a roupa de gabela, como ela diz, e cai dentro de uma vala que passava próximo da casa do amigo. Este, quando entra em casa, mesmo a cair de bêbado, deu-se conta de que alguém tinha estado a cumprir com as obrigações que ele já nem sequer cumpria há muito tempo, pois as bebedeiras eram monumentais.

Pega na caçadeira e vai em perseguição do intruso! Quando começa à procura do traidor, este, que já tinha caído na vala, deitou-se todo lá dentro, isto em pleno mês de Janeiro, e nu.

Quando passou o perigo, foi para casa, morto por um banho quente.
Quem é que ele encontra ao pé da casa dele? O marido da amante!, que vinha para lhe contar a cena que tinha acontecido depois de eles se separarem.

Mesmo bêbado, olhou para o outro todo molhado e pergunta-lhe o que é que lhe tinha acontecido. O rapaz diz-lhe: «Sabes, quando cheguei a casa, dei-me conta de que me tinha fugido um boi do curral, mas já o encontrei... E que grande boi! E tu, o que é que te aconteceu para andares de caçadeira?» O amigo lá lhe contou as desconfianças com que estava na cabeça em relação à sua mulher.

O outro respira de alívio e promete-lhe que, a partir daquele momento, seria ele a ajudá-lo naquela triste situação e que iria descobrir tudo rapidamente, pois os amigos são para as ocasiões! O outro boi lá se foi embora mais tranquilo, pois já tinha um aliado.

A partir dali, as coisas começaram a correr sobre rodas para os dois amantes, a liberdade era sem dúvida muito maior.

Quando o bêbado chegava a casa, o outro saía de mansinho, pois passaram a ter mais cuidado para não bater com a porta, descuido que da outra vez tinha sido o responsável pela percepção de que andava mouro na costa.

Então era assim: quando o bêbado chegava, o outro saía, dava um bocado de tempo, e depois batia-lhe à porta, dizendo: «Se calhar estás enganado, pois estive aqui toda a noite e não vi nada! Mas descansa, que eu vou perder quantas noites forem precisas até saber o que é que se está a passar.»

Já mais feliz e descontraído, o boi passou a fazer maiores noitadas, e as bebedeiras também eram maiores.

E lá foram os três felizes durante uns tempos, mas não para sempre.

terça-feira, dezembro 27

O otário

Há dias, apareceu-me aqui em casa um homem dos arredores de Castelo Branco que era dono de uma serração e de uma frota de camiões.

Era casado, mas isso não o impediu de se meter com uma brasileira que trabalhava numa casa de alterne. A mulher depressa teve conhecimento do que se estava a passar, e abandonou a casa. Ele ficou todo contente! O que é que um homem mais deseja quando arranja uma puta? Liberdade, claro!

Meteu-a em casa, a mulher passou-se, e deu-lhe uma procuração para ele vender tudo e dar-lhe a metade dos bens que tinham em comum.

Ele depressa se desfez das coisas, passando tudo para o nome da puta. Inteligente! Quando já estava a viver com a brasileira, fez novamente uma viagem ao Brasil para comprar umas madeiras exóticas.

O homem andava em maré de sorte! Arranjou logo outra brasileira, que quis vir conhecer Portugal. Ele não se fez de rogado, até porque isto de putas, quanto mais, melhor.
Hospedou-a num hotel lá por perto e começam as saídas nocturnas.

A outra, que era batida, mandou-o seguir por um motorista ucraniano com quem já andava de caso. Esta pensou e pôs-lhe a questão com grande abertura, dizendo-lhe para trazer a outra lá para casa, até porque não se deixa uma patrícia na rua. O parvo nem sequer achou que aquilo era muita fartura. Estava feliz, era um homem realizado!

A nacionalidade da outra também não foi problema. Ele tinha um tio num lar, e trataram do casamento. Só que este velho, além de não ter filhos, tem pinhais e terrenos a perder de vista. Não lhes irá ser muito difícil ficar com alguma coisa ao velhote.

A primeira mulher, à boa maneira portuguesa, danou-se e pôs-se a andar, só que o parvo agora está metido com profissionais. Deram-lhe a volta na cama, e fizeram-lhe o mesmo que ele fez à mulher que trabalhou junto dele durante vinte anos.

O burro até tem o que merece! Como é que esta besta foi confiar assim em duas desconhecidas? Falinhas mansas, carinho para aqui, amorzinho para ali. Aquilo é que deve ter sido cada bacanal! Uma coisa é certa: para o homem fazer tanta asneira junta, muita coisa se deve ter passado naquela cama.

Veio procurar-me porque elas estão a vender tudo para se irem embora. Já o afastaram da firma e estão para o mandar com dono.
Ele veio aqui para saber o que é que eu poderia fazer por ele, pois a situação já estava fora de controlo.

Olhei para ele e respondi-lhe: «O senhor por acaso consultou-me antes de fazer tanta asneira junta? O senhor acha que eu sou a Senhora de Fátima? Do que o senhor precisa mesmo é de um milagre! Reze muito!»

terça-feira, dezembro 20

A mestiça

Estou eu a fazer umas espetadas no meu terraço, ao fim do dia, quando o meu telefone começa a tocar.

Com pouca vontade, pois estou cheia de fome, lá atendo! Sentimento raro: quando vi a seca que era, fiquei cheia com pena de mim mesma.

Esta cliente tinha acabado de chegar de Paris, aonde foi fazer compras.
A primeira coisa que fez quando regressou foi meter-se no carro e ir a casa do amante, na Costa Nova, mas o que viu não lhe agradou nada!

A cama estava em estado de sítio! Além de encontrar uma roupa interior que não era dela, aquilo mais parecia que tinha passado ali um furacão, «Se calhar é alguma fidalga. Que inferno, meu Deus!»

A criatura sente-se a pessoa mais infeliz do mundo, chora que se mata e começa a arrancar os cortinados todos, pois tinha sido ela quem os tinha comprado. O marido é um empresário bem de vida, e ela é uma puta mimada que vai para a cama com tudo quanto é homem.

Aquilo continua noite dentro, e o marido a telefonar a saber dela, que o ia empaliando com desculpas em que só corno mesmo é que acredita.

Mas, como diz a sabedoria popular, não há puta sem sorte.
Ela não era burra. O marido tinha o dinheiro e a posição social, o amante tinha o que ela mais gostava – sexo com fartura.

Comi tudo frio, já sem grande vontade e farta desta vida.
Pus-me a pensar e achei que os psiquiatras têm uma vida muito parecida com a minha, coitados! Descarregam tudo o que é telha, neuroses e frustrações para cima de nós. Será que esta gente não se lembra de que nós também temos sentimentos, os nossos problemas, as nossas paixões, os nossos desgostos...?
Estas putas finas dão cabo da paciência a um santo!

É por estas e por outras que eu, de vez em quando, faço a mala e desapareço oito dias.
Nem eu mesma chegarei a saber se é por vingança ou desespero! Mas que lhes faço isto com alguma frequência, faço!

O meu dia hoje começou mesmo mal.
Logo pela manhã, chegou aqui uma rafeira qualquer que ficou aí com a exploração de uma cantina e que me veio pedir para eu lhe tirar as cartas.

Achei bem, pois a mulher já estava a ficar cheia de banhas e de sebo por não se mexer.
Claro que lhe apareceu logo um artista igual a ela, até porque há sempre um testo para uma panela.

O homem começa a ajudar a carregar as grades, a levar o lixo para a rua, enfim, cheio de atenções!

Está-se mesmo a ver o que é que ele queria.
Ela também sabia, só que veio armada em ingénua para ver o que é que eu dizia. Foi duro! Ela perguntava-me o que é que havia de fazer, pois tinha muito medo do marido, mas que simpatizava com ele e começava novamente o relambório.

«O que é que acha?», perguntava ela.
Até parece que ela queria que as cartas que eu lhe estava a tirar a mandassem ir foder!
«Vou ou não vou?», voltava a perguntar.
Eu estive meia hora a dar sempre a mesma resposta: «Sei lá! Se lhe apetece, vá; se não lhe apetece, não vá!»

Voltava à carga e a moer-me, e eu a dar a mesma resposta: «Sei lá! Se lhe apetece, vá; se não lhe apetece, não vá!»
«Mas o que é que as cartas dizem?», queria ela saber.
Aqui é que eu me passei, e respondi-lhe: «As cartas aconselham prudência, não estão a mandá-la ir foder. Agora faça o que quiser: se lhe apetece, vá, e se não lhe apetece, não vá.»

A isto eu chamo uma conversa filha-da-puta, pois tinha a certeza de que ela estava doida para ir com ele para a cama, só que queria culpar alguém para o caso de a coisa dar para o torto.

Eu sei que me passo de vez em quando, e também sei que, como conselheira espiritual, não devia perder nunca a postura, mas enfim! Sou humana, e de vez em quando salta-me a tampa! Todos temos os nossos limites!

Não tenham dúvidas de que isto é difícil, pois cada puta é mais refinada que a outra.

sexta-feira, dezembro 16

O modelo

Esta cena é tão real como todas as outras, mas mesmo assim eu tenho alguma dificuldade em descrevê-la. Mesmo tendo ouvido contá-la pela própria com todos os pormenores!
Acho isto tão ridículo e tão irreal, que quase nem sei por onde começar.

É mais um daqueles casos que nos deixam a pensar como é que três pessoas se envolvem em tal cena e todos estão de acordo como se isto fosse ir tomar uma bica ali no café mais próximo.

Mas cá vai, tenho de começar por algum lado, e o melhor será começar pelo princípio.

A minha cliente manhosa, que os leitores já conhecem de episódios anteriores, é de facto engraçada, teimosa e imprevisível, pois isto não passa pela cabeça de ninguém a não ser pela dela: ensinar uma amiga ou empregada a foder, para mim, é inédito! Mas foi o que ela fez, acreditem!

Ela levou para a casa de massagens a ajudante de cozinheira que tinha nos tempos em que era proprietária de um restaurante. Só que a manhosa não compreendia porque é que os clientes, mesmo os velhos, não queriam ir para a cama com a ajudante, a quem sempre tratámos por Besunta, dado o aspecto seboso dela.

Vou tentar fazer um retrato desta triste figura: pequena, gorda, grandes mamas tipo cilindro, não se notando qualquer tipo de higiene naquele pedaço de carne.

Já nos tempos do restaurante eu lhe dizia para ela não lhe permitir a entrada na sala, pois com aquele aspecto ia afugentar os poucos clientes que ainda tinha.

Quando ela me disse que a ia levar para a casa de massagens, para fazer os clientes velhos, eu desato a rir à gargalhada.

Ela é nativa de Capricórnio e, como tal, não aceita conselhos; ouve com muita atenção, mas faz o que lhe apetece. Esta é uma característica dos capricornianos.

Disse-me que lhe ia comprar umas roupinhas mais sexy e que para os velhos chegava muito bem. Resultado: Mesmo depois de lhe tentar mudar o visual, os clientes não a queriam na mesma.

Do que é que ela se lembrou? Que a outra não sabia fazer o serviço bem feito e que tinha de a ensinar!

Chamou a Besunta, sentaram-se como se aquilo fosse uma reunião muito importante, e disse-lhe: «Quando chegar o próximo cliente, vais ficar sentada no meu quarto para veres como é que eu faço. A Besunta concordou, também não tinha outra hipótese, pois a loura é de força. E lá ficaram as duas à espera da próxima vítima.

Eis que chega um cliente que a loura não conhecia de parte nenhuma, pois a marcação tinha sido feita pelo telefone. Para a manhosa, isso não foi impedimento, dada a teimosia e a determinação dela.

O homem que tinha marcado o encontro era dono de uns viveiros de árvores, aqui nos arredores de Coimbra, pessoa acanhada com pouco à-vontade e um aspecto rural.
Depois de lhe ser posta a situação, e de ele saber que ia ser dada uma aula de sexo onde teria de colaborar, lá entraram os três para o quarto.

A loura começa o serviço e vai dando explicações à Besunta, enquanto esta está sentada num banco a ver a patroa a trabalhar.

Quando a loura se cansou de dar o seu melhor, chama a Besunta para a cama e senta-se ela no banco para avaliar o trabalho da outra, ao mesmo tempo que ia dando instruções.

Este espectáculo, pelo que ela me contou, demorou cerca de duas horas.
Aí eu perguntei: «Então e o cliente não dizia nada?»
«Não», respondeu-me ela, «só estava com os olhos muito abertos e a dar muita atenção ao que eu dizia. Acho que também estava a aprender!»
«Deixa-te de lirismos e diz-me: o homem gostou!?», pergunto eu novamente!
Aí deixou-se de rodeios e respondeu-me prontamente: «Claro! Comeu duas e só pagou por uma.»

Eu fartei-me de rir com esta maneira comercial e cheia de sentido prático de ver as coisas. Mas, se pensarmos bem, ela está a falar de trabalho ou de negócio, e aqui sentimentos não entram.
Nem sequer lhe passou pela cabeça que o homem podia querer um pouco mais de privacidade dado o tipo de pessoa que era.

A Besunta, coitada, parece que se fartou de chorar. Aquilo era informação a mais para a cabeça dela e para um só dia.
Mas, enfim, lágrimas de puta caem ao chão e ficam enxutas.

quarta-feira, dezembro 14

O gato algarvio

No mês de Julho de 2003, uma amiga que mora na Suíça mas que tinha estado a viver em Portugal oito meses resolveu ir novamente para o país onde vivia há vários anos, e onde tinha as suas amizades, até porque de facto ela já poucas afinidades tem com o nosso país.

Numa das últimas viagens que fez ao Algarve, onde costumava ir jogar golfe, encontrou um gatinho vadio muito maltratado. Como gosta de animais, tratou logo de lhe dar de comer e um banho.

Ela já tinha uma cadelinha, mas isso não a impediu de levar também o gato para casa. Fez-lhe as vacinas e leva o bichano com ela para a Suíça. Só que aquele gato era a reencarnação do demónio.

Com duas filhas pequenas, a cadela e o gato, mete-se no carro e pôs-se a caminho, até porque queria chegar antes do camião que transportava as mobílias.

Aquela odisseia começa em Espanha, quando tira as filhas, a cadela e o gato para irem comer e meter combustível no carro. O gato fugiu-lhe de imediato para os telhados da estação de serviço. Veio um carro de bombeiros e lá conseguem trazer aquela reencarnação do demónio para baixo. Tirou a trela à cadela e meteu-a no gato.

Passados cerca de quinze dias, manda-me chamar para fazermos umas férias no Sul de França. Como ela se tinha separado há pouco tempo, eu fui, porque achei que ela estava a precisar muito de mim por perto.

Quando lá cheguei, fiquei espantada, a casa estava com caixotes até à porta de entrada. Descalcei-me para saltar por cima dos caixotes, quando o gato me salta em cima. Apanhei um susto e também umas arranhadelas. Eu ia com uma saia de franjas, e o gato passou-se, pois atirava-se a tudo o que mexesse.

Não me agradou muito a ideia de ter de ficar a coabitar com aquele gato algarvio, mas em contrapartida não podia vir embora e deixar aquela casa no estado em que se encontrava, pois os colchões ainda estavam no chão. Perguntei o porquê daquela situação, e a resposta que consegui obter foi que os suíços, quando está sol, vão para a piscina ou para o lago. Calei-me, achando que, quando uma cabeça está desorganizada, o resto também está.

Em três dias tivemos de pôr aquela casa funcional, pois de outra maneira não ia de férias. Aí é que começa outro problema: onde ficavam os animais?

Fomos tomar um café e comprar os jornais para ver de hotel para os bichos. Para a cadelinha era fácil, fomos a casa de um senhor que faz os salvamentos quando há as avalanchas e que tinha seis cães de montanha lá em casa. Enquanto o dono da casa gentilmente nos fazia um chá, os outros cães que ele lá tinha hospedados começaram todos a saltar-me para cima, como que a pedir socorro.
Quando de lá saímos, eu disse que não deixava a cadelinha ali.

Com poucas soluções à vista, eis que de repente nos lembrámos da Odete, uma moça da Vagueira que tem um restaurante em Lausana. Como conhece muita gente, lembrou-se logo de um senhor vizinho que vivia só e era reformado. Fomos lá, e o problema ficou resolvido. No outro dia, pegámos nas camas, nas latas de comida, nas taças, na cadelinha, naquela reencarnação do demónio, e fomos levá-los a casa do senhor.

A verdade é que nós tínhamos as pernas de tal forma arranhadas, que já nem estávamos em condições de pôr um biquíni. Ao fim de três dias sem aquela coisa diabólica a trepar-nos pelas pernas acima, e com o calor do Sul de França, as crostas começaram a cair.

Os dias passaram depressa, e regressámos à Suíça, deixámos as malas em casa e fomos buscar os animais. Bem, a sala do senhor estava um caos, os sofás com a espuma e as molas de fora, os cortinados... aquilo já não era nada a não ser uns fios pendurados nuns paus, o senhor com ligaduras nas pernas, pois era diabético e os arranhões não cicatrizavam... A verdade é que a reencarnação do demónio também não lhe dava tempo.

Acabámos por comprar um sofá ao senhor, ficámos amigos e ainda hoje ele passa os Natais lá em casa, pois é uma óptima pessoa. O gato aguentou-se lá por casa quase dois anos, fazendo grandes ausências e voltando, até que um dia desapareceu de vez.

Estas férias com o gato algarvio vão ficar na minha memória até ao resto da minha vida. E ainda hoje me pergunto como é que uma coisa tão pequena conseguiu desorganizar a vida a três pessoas! Acho que aquilo era mesmo o demónio disfarçado de gato.

sábado, dezembro 10

A manhosa

Esta cena passa-se num restaurante aqui nos arredores de Coimbra.

Há duas empregadas de mesa, a manhosa e uma outra rapariga, mais simples e mais ingénua.
Começam as duas a ler o Diário de Coimbra, na página dos contactos.

A manhosa é nativa de Capricórnio e depressa se fartou das leituras. É óbvio que a paciência não é o forte dela. Mas sempre com um olho no burro e outro no cigano, para ver o que se iria passar com a colega.

Deu umas voltas pela sala, compôs uma mesa aqui, ajeitou umas flores ali, mas depressa veio ver o que é que a outra tencionava fazer.

A outra já tinha tomado uma decisão e disse-lhe que ia responder a um senhor que tinha uma confeitaria no Porto.

Como era de esperar, a manhosa ficou à coca.

Os dias foram passando, até que o cavalheiro resolve vir ver o que estaria por ali à espera dele.
Mesmo em cima da hora do encontro, a manhosa decidiu que a colega devia ir tomar um banho para ficar com um ar mais apresentável – como se sabe, «as mulheres são muito amigas umas das outras».

O cenário estava montado, e quem ficou à espera do tripeiro foi ela.

A cena depressa se deu! Ele por fim chegou e pergunta pela tal rapariga; a manhosa gostou do aspecto dele e depressa fez a cama à colega: «Não me diga que o senhor também é dos anúncios!» Ele respondeu que sim.

A manhosa disse-lhe logo que ele nem sabia no que se estava a meter, pois a candidata tinha acabado de sair com outro. Que tinha muitas coisas para lhe contar mas, como estava no local de trabalho, não podia estar ali com esse tipo de conversas.

O cavalheiro perguntou logo se não a podia ir esperar, pois estava deveras interessado em saber de tudo.

Num instante, houve as respectivas trocas de telefone, não fosse a candidata aparecer.
A outra lá saiu do banho e ficou à espera até hoje, pois a manhosa não tinha visto por ali ninguém.

A coisa pegou de estaca entre o tripeiro e a manhosa, que é bonita e tem boa apresentação, e lá vão os dois para o Porto. Ela de malas aviadas, e ele todo contente por ter arranjado duas em uma: mulher e empregada.

Escusado será dizer que isto foi um fiasco de todo o tamanho! Ele enfardava nela por tudo e por nada.

Ela regressou novamente a Coimbra, mas com um filho na barriga.

Isso não a impediu de ir procurar trabalho, e depressa arranjou como empregada de balcão de um supermercado.

O dono já tinha uma certa idade, mas a situação não permitia esquisitices e muito menos demoras, pois a barriga não tardaria em crescer.

O homem teve muita pena dela! Em três tempos, ela deu-lhe a volta, ele põe a mulher na rua, e ficam a viver os dois. Cornos a torto e a direito, mas como alguns até gostam… Lá continuaram juntos alguns anos, até que o negócio ficou em nome dela.

Passado algum tempo, pôs o negócio a trespasse e o marido com dono.
Resolveu então mudar de vida e de profissão também.

Mas esta história não acaba aqui.
Passados dois ou três meses, aparece-me aqui luxuosamente vestida, com uma bonita peruca loura e acessórios do melhor. Fico espantada! Perguntei-lhe se lhe tinha saído a sorte grande, e ela respondeu-me: «Claro que não, abri uma casa de massagens! Mas não é nada o que eu esperava, pois já tive de comprar três tamanhos de vibrador, que é o que a maior parte dos clientes pede agora. De qualquer maneira, ganha-se melhor a vida do que a trabalhar.»

Aquilo dos vibradores não me surpreendeu!
O que eu acho é que, depois que os homens começaram a ver o canal 18 na televisão, todos se sentem artistas porno, e vá de exigir.

Já lá vai o tempo em que eles ficavam todos contentes com uma queca deitados por baixo, ou por cima, agora já não é assim.

Enfim, a profissão mais velha do mundo continua a render passados séculos.

sexta-feira, dezembro 9

Quando o telefone toca

Como era de prever, já estava à espera da reacção das minhas personagens. Hoje cedo comecei a ser ameaçada pelo telefone. Isso não me assusta absolutamente nada, e vou continuar a escrever. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.

segunda-feira, dezembro 5

A devota

Esta senhora, que eu conheço de longa data, já não me surpreende muito.
De qualquer maneira, gosto sempre de a ouvir, pois cada romance que ela arranja é mais triste que o outro.

O marido é comandante de navios de bacalhau, o que lhe dá imenso tempo para ela fazer tudo quanto lhe dá na real gana!

Há uns tempos apaixonou-se por um jovem padre da mesma aldeia que ela, depois de várias tentativas de sedução e de correr todas as paróquias onde ele rezava missa, isto começa a ser incómodo para o padre, que nada queria com ela e resolve pedir uma transferência para bem longe, para o Norte do País.

Isto para ela não foi grande impedimento, que logo arranjou um esquema para continuar as investidas, desta vez com requintes de prostituta.

Arranca para o Norte, de manhã bem cedo, para assistir à primeira missa que ele ia celebrar, e meteu-se na primeira fila, como era habitual! O padre deve ter ficado surpreendido, mas lá começa o ritual e os preparativos.

Quando está em pleno sermão, ela abre o casaco comprido preto e mostra-se tal e qual Deus a pôs ao mundo. O padre ficou atordoado – segundo o relato dela –, mas logo se recompôs e continuou firme no que estava a fazer.

O sacristão, que tinha assistido a tudo, agarrou nela por um braço e convidou-a a sair.

Ela não se deve ter ralado muito, porque à noite foi para uma discoteca, no Porto, onde engata um ladrão de automóveis.
Aí começa nova etapa da vida dela e nova rotina também.

Começou a deitar-se à hora a que costumava levantar-se para ir para a missa.
O ladrão era do pior, só conseguia roubar carros que estivessem abertos e com a chave na ignição, dada a pouca destreza dele.

Isto era cansativo para ela, que tinha de conduzir noites inteiras à espera de que algum condutor mais distraído se esquecesse da chave no carro enquanto ia comprar cigarros.

Estava farta disto, mas, como tinha medo dele, não sabia como fazer.
Por fim, arranja uma maneira para o matar, e veio cá a casa para ver se eu concordava com ela.

O método até estava bem pensado!
Ele era doente do coração, tinha umas crises de ficar de cama, e aí é que ela o lixava com dois ou três comprimidos de Viagra no chá.

Ela foi-me contando todo o esquema de como ia acabar com a raça ao amante.
Deixo de a ouvir e começo a ver a forma mais convincente de lhe tirar tal ideia da cabeça.
O caso estava a tornar-se demasiado perigoso.

Estas situações não são tão lineares assim, primeiro porque ninguém tem o direito de tirar a vida a outra pessoa, e depois, quando chegasse a hora da verdade, ela não assumia nada e ia pôr as culpas em alguém. Ora, a pessoa que ela iria culpar podia muito bem ser eu.

Começo por lhe dizer que o plano dela estava de facto muito bem elaborado, mas que um espírito revoltado poderia bloquear a vida sentimental dela e que nunca mais a deixaria ser feliz com outro homem.
Poderia até começar a aparecer-lhe durante a noite, etc., etc...

Ela ficou a olhar para mim já assustada, e eu vi que tinha a batalha ganha. O que nunca se deve fazer é contrariar uma pessoa desequilibrada.
Acabou por se ir embora, triste, ao ver que o seu plano não era bom e que o seu problema estava sem fim à vista.

Não fosse esta mulher uma pessoa crente, e o ladrão já estava a fazer tijolo.
Mas como tudo na vida tem uma solução, o problema acabou por se resolver da seguinte maneira:

Uma noite em que os dois andavam naquelas tristes digressões nocturnas à espreita dos condutores mais distraídos, acabaram por encontrar um carro a trabalhar sem o condutor lá dentro. Ele salta do carro que ela conduzia e, num abrir e fechar de olhos, foge com o carro roubado.

Ela, que segue atrás dele, avista um carro da GNR junto a um bar, telefona-lhe a dizer-lhe que vai beber uma água, e conta tudo o que se estava a passar.

Para já, ela tem o problema resolvido sem usar o viagra, pois o fraco ladrão foi preso na mesma noite. Vamos ver o que se passa quando ele sair da cadeia.

sexta-feira, dezembro 2

O sr. prior

Ali para os lados de Mira acontece cada coisa, que até Deus se admira. Numa freguesia lá próxima vivia um casal ainda jovem. Ele trabalhava no ramo da informática. Ela era uma executiva da função pública.

A esposa, mulher atraente, fogosa e jovem, adorava exibir os seus dotes e insinuar-se. O marido, demasiado ocupado com os seus compromissos e com uns bons uísques à mistura, não tinha tempo para satisfazer os desejos sexuais dela, que sofria muito com a falta de atenção e do resto.

Começa então a ficar com depressões com a falta de atenção e do carinho do marido.

Nessa mesma freguesia havia um padre, muito simpático e amigo do casal, que começou a ir consolar a senhora e a dar-lhe todo o que ela precisava. Assim, o padre começou a aliviar o stress dela e o dele também.

Bebia uns copos lá em casa com o marido até que este adormecia e se ia deitar, e lá ficava o amigo mais um bom bocado a consolar a senhora, pois o sr. padre achava por bem e acima de tudo por misericórdia ajudar o amigo naquela tarefa bem difícil.

Mas como as visitas do padre eram muito assíduas, a própria família começou a desconfiar, e um desses elementos vai contar tudo ao pai da jovem senhora. Este não ficou nada contente e resolve fazer justiça para limpar a honra da filha.

Fez uma espera ao sr. padre de caçadeira em punho que este só teve tempo de sair pela porta da frente e meter-se no carro à pressa.

O pai depressa se apercebeu, e começa ali uma perseguição por todas as ruas daquela freguesia.
Foi então que chegou aos ouvidos do marido o que o sogro andava a fazer.

Este pega também no carro e lança-se numa perseguição louca para ir em defesa do sr. padre.
Como esta perseguição durou algumas horas, aquilo começou a ser falado, pois aquele rali nunca mais acabava.

Há um outro amigo da senhora que, ao ter conhecimento do que se estava a passar lá na terra, entra ele próprio também na dita perseguição.

Depois de correrem todas as ruas do concelho, juntam-se todos num cruzamento.
O último a entrar nesta corrida foi o industrial grande amigo da senhora. Sai do carro e lá começa ele a acalmar os ânimos.

A situação acalmou, pois o pai da senhora ficou frustrado ao ver que o corno do genro estava do lado do sr. Padre, e desistiu ali mesmo de lhe limpar o sebo.
Foram então todos para casa do casal, beberam até o marido ficar a cair, deitaram-no e lá ficaram os dois a consolar a senhora, que estava inconsolável.
Dessa consolação toda nasceu uma criança, e foram todos muito felizes, até o corno.