terça-feira, novembro 22

O talibã

Hoje apareceu-me aqui em casa uma moça madeirense, ainda jovem, bonita, mas com uma tristeza profunda no olhar.

Há cerca de quinze anos conheceu um professor com quem veio para o continente, e com quem viveu até hoje.

Nunca casaram, porque a família dele sempre achou que uma moça que não tinha a mesma formação académica que ele não estaria à altura deste grande homem.

Mas mesmo assim lá foram vivendo juntos, sem ela criar grandes problemas, apesar de o homem não prestar para nada, gastando o ordenado dele e o dela também, que sempre trabalhou.

Como gostava dele, aguentou tudo. Sem família por perto, sem ter sequer quem lhe desse um conselho, ou até um pouco de apoio, a moça por cá se foi aguentando.
Só que agora as coisas tomaram tal rumo, que não dá para continuar.

A última que este grande homem lhe fez foi casar com uma prostituta ucraniana que trabalha num bar de alterne muito perto da casa deles.

Foi uma colega dela de trabalho, e grande amiga, que lhe contou a situação, pois ele foi alugar casa para a mulher com quem casou a um familiar da amiga, que até a levou a ver o apartamento.

A madeirense calou-se mais uma vez e, quando ele foi tomar banho para sair, roubou-lhe uma chave que ela não conhecia, do bolso das calças.

Ele saiu, ela passado um pouco foi atrás dele, e depressa o encontrou na casa que a outra lhe tinha ido mostrar.

Não fez escândalo! Ficou à espera talvez de o ver sair. Mas os nervos traíram-na e não a deixaram ficar quieta. Passado um bocado, mete a tal chave na fechadura e entra devagarinho na casa da rival.

Em cima de um sofá está a roupa dele toda direitinha e as chaves do carro também.
Pegou naquilo tudo, voltou a sair e foi para casa.

Quando o sr. doutor saiu do quarto, nunca mais viu nada do que era dele.
O que é que este triste pensou? Que tinha sido o chulo da nova mulher ou então um assalto! Mas não! O carro estava à porta da nova mulher. Meteu-se novamente para dentro, e que linda solução que eles arranjaram! Foi num lençol de flanela às riscas que fizeram um buraco no meio, ele enfiou aquilo na cabeça, calçou uns chinelos da ucraniana, pôs um gorro para não ser identificado, e foi embora a pé para casa dele, que ficava a uns quatro quilómetros dali, pela estrada nacional.

Andou um bom bocado sem problema nenhum, pois já eram quatro da manhã. Mas que grande surpresa um pouco mais à frente! Uma operação stop. O mal dele foi ter voltado para trás, pois a polícia desconfiou e não gostou daquilo, indo ao encontro dele, que se preparava para fugir.
Sem documentos, foi muito difícil explicar aquela indumentária, ainda por cima na altura em que foram praticados os atentados em Espanha.

Levaram-no para a esquadra, onde a “família de gente tão nobre” o teve de ir identificar.
Quem mais gozou com isto tudo foram os outros presos que lhe levantavam a burca e lhe viam o fio dental da ucraniana por baixo.

Não se sabe o que é que lhe terá acontecido mais, porque o resto o sr. doutor não conta.
Mas se aconteceu o que nós estamos a imaginar, a mulher dele já está vingada de todas as maldades que ele e a família lhe fizeram passar aqui no continente. A mulher só diz que ele saiu da esquadra em muito mau estado e farta-se de rir daquilo que fez.