quarta-feira, novembro 2

O homem invisível

Havia, numa aldeia perto de Mira, um casal de apaixonados que tinha algumas dificuldades nos seus encontros amorosos, por ele ser um homem casado e ela ser “amiga” da esposa dele.
Numa situação destas, todo o cuidado é pouco, como se sabe.

Eles, sempre preocupados em arranjar locais onde não pudessem ser apanhados, lembraram-se de ir para a praia da Tocha. Aquela praia de areias muito brancas e com bastantes dunas era o paraíso para eles.

Em pleno mês de Março, e com as primeiras tardes de sol, as gentes daquela zona andam numa grande azáfama a semear as batatas. Portanto, estava fora de questão alguém normal ir a banhos numa altura do ano em que o trabalho no campo é muito e duro.

Começando eles a dar a primeira queca, com a senhora de joelhos e ele por trás, eis que ela, mais atenta, com um olho no burro e outro no cigano, descobre por detrás de uma duna e no meio daquelas ervas altas um vulto, ou seja, uma cabeça com um saco de plástico branco com dois buracos no sítio dos olhos. Chama o seu amante à atenção, dizendo-lhe: «Pára, que está ali o homem invisível a espreitar-nos!»

Ele pára o serviço, vestem-se e ficam sentados na areia, talvez à espera de que o intruso, depois de ser visto, se fosse embora.

Tremendo engano! Ele não só não se foi embora como ainda fez questão de ser visto!
Foi para bem perto deles, numa praia tão grande, vestido e com o tal saco de plástico na mão.
Começou a despir-se, ficou nu, e ia dobrando a roupa para dentro do tal saco com os dois buracos. Vestiu um calção de praia, foi molhar só os pés, pois a água nessa altura do ano está gelada. Voltou para perto do casal, que estava espantado com tal descaramento, voltou a pôr-se nu, vestiu-se calmamente e desapareceu dali.

Como a senhora esteve sempre atenta a todas estas manobras do intruso, o amante começou a dar-lhe cabo da paciência com uma cena de ciúmes, dizendo-lhe que ela estava doida a olhar para a piça do outro.

Ela – que já estava aborrecida por aquilo, que estava tão bem planeado, ter corrido tão mal, e ainda por ter sido observada por um estranho, que é coisa de que ninguém gosta – responde-lhe: «Olha, não me chateies mais, porque se ele tinha piça, era invisível, que eu não consegui ver nada!»