sábado, novembro 26

O desespero

Estou eu tranquilamente a fazer umas mudanças na minha casa e a ouvir umas músicas, quando o telefone toca! Olho para o visor, vejo que é um amigo meu de longa data. Atendo.

Este amigo parecia que estava doido. Andava já há uns tempos a seguir a mulher, e de cada vez que a via acompanhada com outro, ela negava tudo! E ainda lhe dizia que ele estava doido, que fosse com muita urgência a um psiquiatra.

Ora bem, isto tira qualquer um do sério! E ainda que aproveitasse e fosse também ao oftalmologista, pois devia andar a ver mal.

Em completo desespero, pergunta-me o que é que devia fazer, pois ela ia negar tudo novamente!

Diz ele: «Estou a persegui-los, e eles não param, o que é que eu hei-de fazer? Ela vai negar tudo outra vez.»

Nem sequer tive tempo para pensar e respondi-lhe: «Sei lá! Só se lhe mandar com o carro para cima!»

Não ouvi mais nada a não ser «pum!»… Vi logo que o homem tinha feito a porcaria que lhe sugeri. Como ele não desligou o telemóvel, fiquei à espera, preocupada, pois não se dá tal conselho a ninguém.

Passados segundos que a mim me pareceram uma eternidade, o meu amigo volta a pegar no telefone para me dizer, quase a chorar, que eles tinham fugido na mesma.

Fiquei contente. Pois dois carros de alta cilindrada a cento e tal à hora na estrada da Mealhada a mandarem-se assim para cima um do outro e sem ninguém sofrer danos era quase um milagre.

Esta mulher é muito puta! Tudo o que vestir calças... marcha! Morro de pena da secretária, pois sempre que esta arranja homem, a patroa saca-lho.

Há dias ela tentou negociar comigo uma tarde do meu trabalho pois tinha imensas perguntas para me fazer! Disse-lhe que viesse e que nem sequer me pusesse tal questão, pois era amiga dela e do marido há muitos anos.

Apareceu cheia de prendinhas com ar de falsa humilde e lá começa a minha consulta.
Como toda a gente sabe, as cartas tradicionais têm só quatro reis, nos quais nós marcamos os homens de quem queremos fazer as perguntas, só que ela trazia uma lista que nunca mais acabava e, cada vez que aquelas perguntas dos quatro homens acabavam, ela queria voltar ao princípio para saber de mais outros quatro.

Sou nativa de Capricórnio com ascendente em Leão, e a paciência não é o meu forte. Passei-me e pu-la na rua. Ofendeu-se e deu-me paz durante algum tempo!
Mas aquilo foi sol de pouca dura.

Ela não é nada inteligente, mas, como é mulher, é manhosa! Deixou que me passasse a pancada e manda a secretária telefonar-me para me pedir se a atendia.
Esta puta é viciada em mim, pensei eu!

Conheço a secretária há tantos anos, que lhe perguntei logo: «De quantos homens é que essa puta quer saber desta vez?» A outra começa a rir um pouco embaraçada e diz-me que ela só queria saber se o marido tinha alguma amante.

Começo a rir à gargalhada, pois a secretária estava numa situação danada: era amante do marido e era ela que lhe passava todas as informações.

«Está bem», respondo eu, «ela hoje quer que eu lhe minta, podem vir para cá.»
A secretária ficou contente com a minha cumplicidade e respirou de alívio.

Chegaram as duas muito risonhas, muito senhoras bem, e eu de pé atrás, pois a última cena que tivemos não era a primeira.
Ela é uma mulher mimada e melindra-se por tudo e por nada.
A nossa relação de consultora espiritual e cliente já andava um pouco abalada.
Sentou-se à minha secretária e começa por me dizer que andava desconfiada do marido.
E eu em vez de ficar calada e ouvir o que ela tinha para me dizer, respondi: «Então estão quites! Ele também desconfia de si!»

Ela, que devia ter tido uma atitude de mulher e virado costas à minha conversa, não! Fica ali na minha frente de trombas.

Vi que não tinha sido lá muito correcta, levantei-me da secretária e disse-lhe: «Acalme-se enquanto eu vou fazer um café.»

Tirei um café para ela, outro para mim, e fico à espera de que ela fale.
Nada! Esta mulher é tão mimada, que às vezes parece um garoto. Aquilo já tinha descambado outra vez.

Comecei a analisar a situação e achei que também não tinha dito mal nenhum. Já me conheço tão bem, que sabia que aquilo ia acabar outra vez mal.
Levantei-me, pois se a mulher não falava, era porque não me queria nada.
Passei pelo hall onde a secretária estava sentada e disse-lhe: «Vá buscar a sua patroa, ela hoje não quer falar!»

Fui para dentro, e só voltei quando ouvi a porta bater.
Não soube gerir esta situação, mas também não me importei nada! Eu até já estava farta daquilo!

Nunca mais a vi. Também não fiquei com saudades. A secretária continua a visitar-me. O marido está cada vez mais corno, mas gosta.

Há pessoas que têm o condão de nos irritar.
Eu acho que são situações cármicas mal resolvidas nas outras reencarnações.