sexta-feira, novembro 18

O corno bravo

Este relato é igual a tantos outros, só que desta vez estou metida num inferno com um corno a chatear-me o tempo todo.

Este corno quer por força saber o que é que a mulher me disse!
Como as consultas são confidenciais, eu disse logo que nem sequer sabia de quem é que ele estava a falar.

Isto começou assim: nesta semana, aparece-me aqui uma brasileira que é esteticista. Isto para mim é normal, pois a maior parte das mulheres casadas tem um amante e um marido com quem vivem.

Vinha triste e deprimida porque estava zangada com o amante. Ela resolveu ir fazer queixas dele a um colega, e acabaram os dois na cama. Se a situação já estava má, ainda ficou pior: o amante não lhe liga nenhuma, e com razão!

Então ela veio ter comigo para ver se eu a podia ajudar. Só que ela nunca me disse que tinha sido o marido a transportá-la, e muito menos que tinha ficado no carro à espera dela.
No dia seguinte, de manhã cedo, a minha campainha toca, e fui ver o que é que se passava tão cedo!

Surpresa! Era o corno. Começa por me dizer que a mulher tinha cá estado, que era brasileira e que era uma grande puta!

Não tive como negar e respondi-lhe: «Ah!, já sei quem é, mas olhe que ela pareceu-me uma mulher séria!»

Qual séria, qual quê, aquilo é uma grande puta! O homem estava roxo de raiva! Aí fui eu que comecei a ficar enervada, que culpa tinha eu de a mulher ser tão puta?

De repente, ele tira do bolso umas cuecas pretas tipo fio dental, cheias de esperma, e estende-as em cima da minha secretária. Passei-me e disse-lhe: «Tire já essa porcaria de cima da minha frente, seu porco!»

Ele começa a embrulhar aquilo com muito carinho e mete-as novamente no bolso. O homem acalmou com o meu grito e ficou muito calado.

Aí fui eu que lhe perguntei: «Mas diga-me uma coisa, se a mulher não presta, por que é que não a larga?» Ele respondeu-me muito triste: «Não posso, vendi tudo o que era do meu pai para lhe montar o salão e para mandar vir os filhos dela do Brasil. Além disso, a minha família nem sequer me fala.»

Aquele corno que chegou a minha casa capaz de me engolir começa a chorar na minha frente, que nunca mais acabava.

Quando por fim acalmou, mostra-me uma arma que tinha dentro do blusão e diz-me que o que vai fazer é matar essa grande puta. Deu meia volta e saiu sem sequer se despedir.

Fiquei preocupada e telefono para a puta a avisá-la! A puta era de força e telefona-lhe logo para discutir com ele. O corno telefona para mim novamente para me insultar.
Não liguei nenhuma, pois não estava a contar abrir-lhe a porta novamente.

Qual não é o meu espanto quando, passados dias, paro o meu carro em Tentúgal para tomar um café e os vejo todos contentes a comer pastéis e a rir, como se nada se tivesse passado.

Vim para casa e passo pelo atelier do meu amigo Pedro Olaio, para lhe contar esta cena e para lhe dizer que eu é que tinha razão, que os homens gostavam era de putas. Ele fartou-se de rir e responde-me: «Estás enganada! Eles gostam é daquilo que elas lhes fazem.»

Fiquei ali mais um pouco, pois gosto de o ver pintar, e vim para casa a pensar na grande sabedoria deste homem.