sexta-feira, novembro 4

A casa da Aurora

Este relato de hoje é das coisas mais arrojadas que eu já ouvi.

Há uma prostituta que tem um quarto alugado na baixa de Coimbra, trabalha numa casa das mais antigas desta cidade, entre os arcos e a penitenciária, qualquer homem de cá sabe de que casa se trata.

Ao lado do quarto alugado da prostituta foi viver um rapaz que trabalha na construção civil, aqui por perto.

Embora ele viva nos arredores, achou que lhe ficava mais barato e menos incómodo alugar um quarto, do que fazer aqueles quilómetros todos os dias.

A viver ao lado um do outro, acabaram por se conhecer! Ele simpatiza com ela, ela viu ali uma maneira de sair daquela vida, pois já estava quase com quarenta anos e aí é que elas começam à procura de uma tábua de salvação, pois a nível de sentimentos: zero. Apresentam-se, ele diz-lhe que é pedreiro, ela diz-lhe que é modista, e lá começa o namoro. A vida dela continuou igual: sai de casa vestida normalmente, e no local de trabalho veste as minissaias, as botas acima do joelho e lá ia aviando os fregueses.

Ao fim do dia lá mudava novamente a indumentária e dava a volta ao pedreiro.
A situação foi evoluindo, até que o rapaz resolve ir apresentá-la aos pais, para falarem do casamento.

Meteram-se no Renault 5 e arranjadinhos lá vão para Miranda do Corvo. Esperaram que os pais dele saíssem da missa para irem à apresentação e à chanfana.

Mas que grande surpresa! O pai do rapaz era um dos clientes habituais dela, ela ficou na mesma,
«puta é puta», o pai é que ficou sem palavras, segundo ela me contou, tão branco e entupido, com um ataque de tosse, que todos lhe davam palmadas nas costas.

No dia seguinte, o homem, que não deve ter pregado olho a noite toda lá estava à porta da casa da Aurora à espera da futura nora.

Ela entra como se nada se tivesse passado.
Vão para o quarto e aí começam as negociações… Ele diz-lhe que ela tem de desistir daquela ideia de casar com o filho, e ela pergunta-lhe porquê.
«Se tu te calares, eu também me calo!», diz a prostituta, e o homem começa a oferecer-lhe dinheiro para ela largar o filho.

Aí é que ela começa a ver que pode tirar partido daquela triste situação.
Ele oferece, ela diz que é pouco, e ainda faz chantagem dizendo que conta tudo à mulher dele.
Ele mostra um ar aflito e diz que ela não pode fazer-lhe uma coisa dessas. Tudo menos falar com a mulher dele.

«Pronto, já estragou tudo!», penso eu ao ouvi-la. Ela é puta, mas não é burra, e quando se trata de dinheiro, aí, sim, os cinco sentidos dela ficam mais apurados e começa a raciocinar.
Neste chove-e-não-molha, a parada já vai alta, e ela não tem nada a perder.

Vou esperar que ela apareça novamente, pois estou interessada em saber o que é que este burro vai fazer. Ele está cheio de medo da mulher, e a puta vai tirar partido da situação.

Quem com putas se mistura, negra é sua ventura.