A casa da Aurora (III)
Estava eu no salão de cabeleireiro no outro dia, quando entra uma cara que me era familiar.
Olhando melhor, vejo que se trata da prostituta que fazia chantagem com o futuro sogro.
Bem vestida, bem calçada, de óculos caros, enfim… De facto, o dinheiro não admite miséria.
Aproximou-se de mim, desviei-me para um canto com ela e pergunto-lhe pelo sogro.
Esta história estava-me atravessada, pois queria saber o fim. Ela respondeu-me: «Está mal, deu-lhe um enfarte, e sou eu que trato dele e dos negócios. Já casei, e os meus sogros estão cá na minha casa por ser mais perto dos médicos. O meu marido fez uma sociedade de pinturas de interiores. Eu estou a fazer um projecto de um aldeamento com o engenheiro da empresa do meu sogro.»
Vi logo que ali havia coisa, agora com o engenheiro, ela riu-se e não negou.
O motorista continua a ser o tal chulo que não tem físico para aguentar duas lambadas, conduz o Mercedes do sogro e devem rir-se muito os dois das voltas que a vida dá.
Ela acabou por não arranjar o cabelo, pois tinha uma reunião importante sobre o tal aldeamento. Ainda tive tempo para lhe perguntar pelo apartamento dela, se aquilo ainda estava a funcionar, disse-me que sim, mas que ia lá poucas vezes por falta de tempo. Quem está a gerir esse negócio é o motorista, tem aquilo cheio de brasileiras, e pelos vistos corre bem.
Afinal, o dinheiro é que fala mais alto, e ela agora tem-no.
Quem diria que aquela triste tinha miolos? Fiquei a pensar nisso todo o dia.
Na verdade, ela não foi burra, mas com o dinheiro que tem agora, também não precisa de os ter, ela pode pagar a quem pense por ela, e o seu aspecto indica tranquilidade, disso não fiquei com dúvidas nenhumas!
Gostei de vê-la a sair de motorista com um ar tranquilo, até parecia que tinha sido rica toda a vida. Ainda há quem diga que o dinheiro não dá felicidade! Não é a minha opinião! O que eu acho é que não há relação nenhuma que resista à miséria, pois casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Por isso ela continua com o marido, talvez lhe dê jeito, e como são as empregadas que vão cuidado dele, ela não se preocupa muito com esse assunto, e deixa correr. Neste momento, tem coisas mais importantes em vista.
O marido é uma capa que lhe dá jeito, ela tem os trunfos todos. Só que talvez não seja a hora de pôr fim àquela situação.
Nunca vou saber o que é que lhe passa pela cabeça.
Começo a acreditar no provérbio popular que diz «Não há puta sem sorte».

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