quarta-feira, outubro 26

A transmontana

No passado mês de Julho, viajei para a Suíça, onde tenho uma filha.
Cheguei ao aeroporto, e ela estava acompanhada de uma colaboradora e grande amiga da família.

Não saímos de imediato, e fomos para o bar, com esta nova moda de não se poder fumar nem nos aviões nem nas salas de embarque.
Chegamos ao nosso destino em perfeito estado de ansiedade, doidas por um café decente e por um cigarro.

Não me apercebi de imediato do estado depressivo em que se encontrava a nossa amiga, mas já mais calma e descontraída começo a reparar que a moça estava de facto muito diferente. Perguntei: «Então, amiga, o que é que se passa contigo? Estás como que assustada...»

Aqui é que começa a história, e que história, meu Deus!

Ela tinha ido a Paris para resolver um assunto relacionado com o divórcio dela, e não encontrava o marido em parte nenhuma. Foi aí que um cunhado lhe disse: «Vou levar-te a um sítio onde encontras o teu marido de certeza absoluta!» Só que ele talvez quisesse fazer-lhe a surpresa do local onde o iriam encontrar. Lá pelas tantas da noite, o cunhado aparece, e leva-a para uma rua que ela, tendo vivido tantos anos em Paris, nem sequer conhecia.

O espectáculo foi do mais degradante que se possa imaginar, aquilo era do mais triste que há! Os prostitutos todos com as pilas em cima dos capôs dos carros como se de qualquer mercadoria se tratasse.

É claro que a mulher ficou em estado de choque até hoje, pois não há maneira de se tratar. A isto é que eu chamo uma surpresa de se lhe tirar o chapéu, aquilo é que era um mercado de piças que a nossa amiga em vez de apreciar ia morrendo ali mesmo!

Eu tenho ouvido muita coisa, mas esta história pôs-me a pensar. Em que sociedade é que nós vivemos? Tudo se compra, tudo se vende, enfim…

Os dias que passei naquele pequeno país foram muito bons para esta rapariga simples, gente boa. Como a vi tão triste, fomos dar uma volta por França, Itália, etc.
Brinquei com ela o tempo todo, dizia-lhe: «Já viste que és uma transmontana desprevenida? Se tivesses levado uma máquina fotográfica ou até um telemóvel com câmara, a exposição que nós fazíamos na loja da minha filha!» Também levei alguns episódios deste blog, e lá consegui tirar a moça daquele marasmo em que se encontrava, mas para ela o que mais a entristecia era pensar que tinha estado casada com aquilo durante doze anos. Quando me vim embora, ela ficou de facto melhor, embora este pesadelo a vá perseguir durante muito tempo.

Fiquei contente por ter ajudado, pois considero que fui uma boa terapia para ela, só não sei por quanto tempo. Acho que ela irá ficar com aquela cena triste armazenada na memória, e que dificilmente esquecerá aquela digressão nocturna.

Lembro-me perfeitamente de um dia em que fui a um jantar de aniversário da Rádio Regional do Centro, onde eu era colaboradora, e de um dos convidados se ter aproximado de mim para me perguntar se eu era e feliz. Esta pergunta hoje até faz algum sentido! Nessa época, até era, pois pouco sabia da vida. Hoje, com esta informação toda, quem é que consegue ficar indiferente e sem olhar as pessoas com uma certa desconfiança?

Recentemente, num outro jantar, estava eu a olhar para uma das convidadas talvez mais atentamente, quando a pessoa se aproxima de mim e me pergunta por que estava a olhar tanto para ela. Respondi: «Por nada! Estou a tentar vê-la de dentro para fora.» Acreditem que a pessoa se sentiu desconfortável e saiu porta fora! O que é que aquela criatura teria para esconder?

Sinto saudades do tempo em que acreditava em tudo.
Ignorância e falta de conhecimento da vida são os melhores ingredientes para a felicidade

Não tente conhecer de mais o ser humano, porque fica decepcionado.
Fiéis amigos, leais, desinteressados e puros são os cães.